Estudo apresenta disparidade na percepção e na resposta ao cenário econômico entre mulheres e homens

A pesquisa da Sondagem do Consumidor, do Instituto Brasileiro de Economia (FGV IBRE), produz os resultados de confiança e demais indicadores de tendência econômica abertos por características sociodemográficas.
Economia
13 Março 2024
Estudo apresenta disparidade na percepção e na resposta ao cenário econômico entre mulheres e homens

A pesquisa da Sondagem do Consumidor, do Instituto Brasileiro de Economia (FGV IBRE), produz os resultados de confiança e demais indicadores de tendência econômica abertos por características sociodemográficas. Uma das aberturas disponíveis são os resultados por sexo, para mulheres e homens, desde 2006, início da série histórica.

Ao analisar o comportamento do Índice de Confiança por sexo ao longo dos anos, percebe-se um descolamento entre a confiança das mulheres e dos homens a partir do fim de 2015. Nota-se que a confiança das mulheres, quando em períodos de recuperação da atividade econômica, tende a ser inferior ao dos homens. Esse comportamento pode ser observado a partir do fim de 2015, quando a economia buscava recuperar a confiança que foi perdida durante a recessão de 2014-2016; e após o vale da pandemia em 2020. Esse movimento sugere a existência de disparidades de gênero na forma como homens e mulheres respondem aos períodos de incerteza econômica e recuperação da atividade. Pode ser atribuída a uma combinação de fatores socioeconômicos, como disparidades salariais e responsabilidades familiares, percepções divergentes de risco, além de expectativas sociais e culturais em relação ao papel das mulheres na economia.

Nos dados mais recentes, em 2023, o nível de confiança das mulheres registrou valores superiores ao dos homens por dez meses seguidos (entre fevereiro e novembro de 2023), algo que só havia acontecido em 2006, quando a confiança das mulheres foi superior ao dos homens por 16 meses consecutivos. Para uma compreensão mais aprofundada desse resultado, seria necessário aguardar os próximos dados para determinar se ocorreu de fato uma mudança estrutural, resultando em uma confiança superior das mulheres em relação aos homens, ou se foi apenas uma oscilação temporária. Os dados de 2024 já sugerem esta última opção, com o ICC feminino voltando a ser inferior ao ICC masculino.

Entre os indicadores que compõem o Índice de Confiança, o indicador que sinaliza a percepção sobre a situação atual por parte das mulheres tende a ser superior ao dos homens na maior parte do tempo, enquanto o indicador de mede as expectativas para os próximos meses mostra os homens como sendo mais otimistas do que as mulheres. Vale mencionar, que nos dados não padronizados a distância entre os indicadores por sexo acaba sendo bem superior, resultado em linha com estudos internacionais. Por exemplo, o indicador de situação financeira atual sugere uma visão bem mais desfavorável para as mulheres sobre as finanças no presente, ao estar, em média, 15 pontos abaixo desse mesmo indicador para homens. Novamente, tal resultado pode sugerir como mulheres e homens respondem, observam e se inserem na economia.

Um outro resultado interessante é a diferença das respostas sobre a situação financeira dos consumidores. Historicamente, a parcela do “endividando-se” é mais respondida por mulheres do que por homens como pode ser visto no gráfico 2. Na média, entre 2009 e 2024, 10,5% das mulheres estão endividando-se, enquanto 7,0% dos homens se encontram nessa situação, uma diferença de 3,5 pontos percentuais (p.p.). Em fevereiro de 2024, último dado disponível, essa diferença se amplia para 4,4 p.p., com 11,2% das mulheres respondendo que estão se endividando, contra 6,8% dos homens.

Essa discrepância nas respostas sobre a situação financeira dos consumidores, onde uma proporção maior de mulheres relata estar endividada em comparação com os homens, novamente sugere disparidades de gênero, agora em termos de saúde financeira e gestão de finanças pessoais. Essa diferença pode ser atribuída a uma variedade de fatores, incluindo diferenças nos padrões de consumo, nas responsabilidades financeiras e nas oportunidades de renda entre homens e mulheres. Mulheres podem enfrentar desafios adicionais, como disparidades salariais e custos de cuidados familiares, que podem contribuir para uma maior incidência de endividamento.

Além disso, vale mencionar que, desde julho de 2022 o percentual de mulheres sinalizando que estavam se endividando esteve acima da média histórica, com exceção a dois meses. Ou seja, desde meados de 2022, em 90% dos meses tem-se um percentual superior à média histórica de mulheres assinalando que estavam se endividando. Já para os homens, na mesma janela de comparação, esse desenho é mais equilibrado, onde em 55% dos meses o percentual de endividamento dos homens estava abaixo da média histórica.

Esse resultado recente, mais uma vez, ratifica as disparidades entre mulheres e homens na economia, além de possivelmente serem um reflexo da pandemia. Com as crianças em casa devido às medidas de restrição, as mulheres enfrentaram uma sobrecarga ainda maior de responsabilidades domésticas em um momento que muitas perderam seus empregos. Quando a economia começa a se recuperar, as mulheres podem levar mais tempo para retornar ao mercado de trabalho, seja devido à discriminação de gênero que enfrentam, seja porque já estão de alguma forma defasadas em termos de habilidades tecnológicas. Ainda, durante esse período, houve um aumento dos preços, o que possivelmente foi mais sentido pelas mulheres, dada a persistência das disparidades salariais de gênero. Esse contexto exacerbado pela pandemia pode contribuir para o aumento do endividamento das mulheres e para as disparidades observadas entre homens e mulheres na economia, como evidenciado pelos dados recentes.

Acrescentando a isso, o número de mulheres chefes de casa tem aumentado, o que coloca a mulher, por um lado, em uma posição de independência financeira, mas também de maiores responsabilidades financeiras. Nos casos de mães solteiras, essas responsabilidades precisam ser custeadas sozinhas. Embora essa independência financeira represente um avanço significativo para as mulheres, ela também pode contribuir para um aumento da pressão financeira e do endividamento, especialmente quando combinada com disparidades salariais de gênero e dificuldades em acessar oportunidades de renda iguais às dos homens.

Um outro indicador que sinaliza discrepâncias de como mulheres e homens se inserem e percebem o cenário econômico são as expectativas para inflação. Historicamente, as mulheres têm expectativas mais altas para os preços e nos últimos meses essa diferença voltou a se intensificar. Em fevereiro de 2024, as expectativas para a inflação um ano à frente era de 7,1%, contra 5,8% para as expectativas masculinas, uma diferença de 1,3 p.p..

Mais uma vez os resultados refletem disparidades de renda e experiências históricas de desigualdade de gênero. Os desafios adicionais no mercado de trabalho, incluindo salários mais baixos e oportunidades de carreira mais limitadas, podem gerar uma sensibilidade maior às pressões financeiras e aos aumentos de preços entre as mulheres. Tais fatores parecem moldar a percepção econômica individual sugerindo que mulheres tendem a ter uma percepção mais sensível dos preços, também devido a responsabilidades financeiras diferenciadas, como compras domésticas e cuidado com a família. Isso respalda em uma previsão para a inflação mais pessimista e cautelosa por parte das mulheres.

Em suma, a análise dos dados revela uma série de disparidades de gênero na percepção e na resposta ao cenário econômico. Desde as diferenças na confiança entre homens e mulheres até as expectativas de inflação e a gestão das finanças pessoais, há uma clara influência das experiências históricas de desigualdade de gênero e das disparidades socioeconômicas na forma como homens e mulheres se inserem na economia. Esses resultados destacam a importância de se considerar as dimensões de gênero na formulação de políticas econômicas e sociais, visando mitigar as desigualdades e promover uma participação mais equitativa e inclusiva de ambos os sexos no desenvolvimento econômico.

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