Intenção de compras no Natal é a maior desde 2014, ano em que o Brasil entrou em crise

Há mais otimismo entre famílias de maior poder aquisitivo, que ganham acima de R$ 9.600: 11,9% pretendem gastar mais, percentual ligeiramente menor que em 2018 (12,6%). A maioria (56,9%) das famílias com renda mensal de até R$ 2.100 deve desembolsar menos que no ano passado
Economia
20 Dezembro 2019
Intenção de compras no Natal é a maior desde 2014, ano em que o Brasil entrou em crise

O brasileiro, animado com a liberação do FGTS, aproveitou as promoções da Black Friday para comprar. A boa notícia para o Comércio é que o fato não vai impedir de o consumidor voltar às compras, agora para o Natal – melhor data para o varejo. Segundo pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE), 33,0% dos entrevistados antecipavam as compras do Natal na Black Friday em 2017. Esse percentual caiu para 18,2% este ano. Já o indicador que mede o ímpeto de compra avançou para 65,5 pontos, superior ao registrado em 2018 (61,1) – o melhor nível para o Natal desde 2014, ano em que o país mergulhou em sua pior recessão.

Viviane Seda, coordenadora da pesquisa e da Sondagem do Consumidor do FGV IBRE, acredita que há avanço, mas vê os números com cuidado. “O resultado mostra que há uma melhora, mas ainda estamos abaixo da média. É um bom prognóstico que foi motivado pela liberação do FGTS, cujo efeito tende a ser passageiro. Os consumidores, principalmente de menor renda, ainda estão com nível de endividamento mais alto e cautelosos com relação aos próximos meses. Ainda é cedo para falar em melhora financeira para os consumidores em geral, mas há sinais positivos”, ponderou.

Há mais otimismo entre famílias de maior poder aquisitivo, que ganham acima de R$ 9.600: 11,9% pretendem gastar mais, percentual ligeiramente menor que em 2018 (12,6%). A maioria (56,9%) das famílias com renda mensal de até R$ 2.100 deve desembolsar menos que no ano passado. Ainda de acordo com o levantamento, a cautela pode estar relacionada ao nível ainda elevado de endividamento desses consumidores em relação aos demais.

Para Viviane, a liberação do FGTS ajuda os consumidores a quitarem parte de suas dívidas e a liberarem orçamento familiar para novas compras, mas há preocupação com o cenário no médio prazo. De qualquer forma, as vendas devem crescer acima de 2,1% este ano em relação ao Natal anterior. “Nossos dados mostram que há grandes chances de um aumento da expectativa de vendas de segmentos cujas vendas são estimuladas nessa época do ano, considerando crescimento de novembro e dezembro igual ao de outubro”, analisou.

A média de preços dos presentes, também considerada na pesquisa, aumentou de R$ 86 para R$ 104, mostrando que o consumidor está disposto a gastar um pouco mais, o que tende a crescer quanto maior for a renda do indivíduo. As roupas (43%) e os brinquedos (19,6%) encabeçam a lista de preferência do brasileiro.

Intenção de compras de Natal é a maior desde 2014

Apesar de alguns consumidores anteciparem as compras de Natal na Black Friday, o número diminuiu nos últimos anos, de 33,0% em 2017 para 18,2% em 2019[1]. Ou seja, o evento tem contribuído para aumentar as vendas e não reduzir as compras tradicionais de natal. De acordo com as expectativas do varejo brasileiro, a estimativa é arrecadar R$ 35,9 bilhões, 4,8% acima do ano passado, o maior crescimento de vendas dos últimos seis anos para o período do Natal[2].

Para verificar se as expectativas dos empresários estão em linha com a dos consumidores, a FGV IBRE, desde 2007, vem perguntando aos consumidores sobre suas intenções de compra. A prévia dos resultados, em 2019, mostra uma recuperação do ímpeto de compras natalinas na comparação com os últimos quatro anos, mas o nível ainda pode ser considerado baixo em relação a média histórica.

O indicador, calculado pela diferença entre as respostas favoráveis (gastar mais) e desfavoráveis (menos), subiu de 61,1 pontos, em 2018, para 65,5 pontos, em 2019, o maior desde 2014. Com aumento da parcela dos que afirmam que irão gastar mais do que no ano anterior de 8,4% para 9,8% e redução dos que dizem que gastarão menos de 47,2% para 44,4%.

Comparando o Indicador de Intenção de Compras de Natal e as vendas do varejo nos segmentos com maior relação com a data festiva[4], nota-se que o ímpeto para consumir está em linha com o projetado para as vendas em 2019, se considerarmos no cálculo da projeção que a taxa de crescimento do volume de vendas nos dois últimos meses do ano será igual a observada em outubro.

Contudo existem diferenças entre faixas de renda, as famílias com renda mensal até R$ 2.100 são os mais pessimistas: 56,9% pretendem gastar menos e apenas 5,4% acreditam que irão gastar mais. Contudo, vale ressaltar que essas famílias estão mais otimistas em relação a 2018: 61,1% declararam gastar menos e apenas 2,2% projetam maiores gastos. A cautela pode estar relacionada ao nível de endividamento ainda elevado desses consumidores em relação aos demais. Já para os consumidores com maior poder aquisitivo, com renda familiar acima de R$ 9.600, 11,9% estimam gastar mais (ante 12,6% em 2018) e 57,6% o mesmo montante do ano anterior (57,3% em 2018).

Diferente do registrado em 2018, a melhora das vendas se reflete no aumento das vendas de produtos de maior valor adicionado. Em 2019, a proporção de consumidores que pretende gastar mais de R$ 100 passou de 24,2% para 27,5%. Além disso, 3,4% dos consumidores pretendem gastar mais de R$ 500 em presentes, o maior nível da série histórica.

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O preço médio real previsto[5] para os presentes de natal também aumentou 21% entre 2018 e 2019, ao passar de R$86 para R$104. O aumento do ticket médio ocorre para todos os consumidores de forma crescente, isso é, quanto maior a renda maior o valor estimado para o gasto.

Itens mais procurados

Assim como nos anos anteriores, roupas e brinquedos continuam sendo os itens preferidos na lista de natal com 43,0% e 19,6% das citações, respectivamente, um ligeiro aumento em relação ao ano anterior (42,3% e 17,8%). Presentes como perfume, eletroeletrônicos, alimentos, bebidas e eletrodomésticos tiveram maior preferência dentre os consumidores nesse ano, embora que somadas as parcelas esses produtos representem pouco mais de 10% hoje. Itens como lembrancinhas, livros e artigos pessoais, por outro lado, registraram queda de preferência entre 2018 e 2019.

Todos os dados contidos neste relatório são ajustados por sazonalidade, exceto quando expressamente indicado.

Os dados foram obtidos com a previa de resultados da Sondagem do Consumidor até o dia 14 de dezembro de 2019. Informações/ mais detalhadas sobre a Sondagem do Consumidor estão disponíveis no site www.fgv.br/ibre.

 

 

 

[1] Quesito especial Black Friday da Sondagem do Consumidor referente a novembro.

[2] Segundo dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

[3] Dados calculados a partir de prévia da Sondagem do Consumidor apurada até o dia 14 de Dezembro

[5] Considerando-se o ponto médio de cada faixa de presentes.

[6] Valores deflacionados em novembro de 2019 pelo IPCA.