Redução da Selic surpreende economista do IBRE

Institucional
02 Setembro 2011

A redução de 0,5 ponto percentual na taxa básica de juros ? que passou de 12,5% para 12% ?, anunciada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) na última quarta-feira, 31, interrompeu com uma queda, pela primeira vez, o ciclo de aperto monetário do Banco Central (BC). A medida foi recebida pela economista e coordenadora do Boletim Macro do IBRE/FGV, Silvia Matos, com surpresa. ?O normal seria o BC, depois de subir os juros seguidamente, sinalizar de antemão que na próxima reunião do Copom a tendência seria a queda. Esse era o processo natural de comunicação e atuação do BC?, destaca Silvia, alertando que, no momento, o mais prudente seria manter a Selic em 12,5%. Mas o curto-circuito no processo de comunicação do banco não é o ponto central da questão e, sim, a justificativa para a diminuição nos juros básicos da economia. Segundo o Copom, a razão que fez com que a maioria dos diretores votasse a favor da mudança foi a deterioração do cenário internacional, e, consequentemente, uma possível baixa da inflação. Mas, a explicação não convenceu. ?Seria justificável se houvesse uma ruptura do cenário internacional, como ocorreu em 2008. Sabemos que a economia mundial não está bem, só que mesmo com menor crescimento global, os preços das commodities continuam a subir, e isso não é deflacionário? afirma Silvia.  Segundo ela, a decisão do BC fica mais complicada pelo fato do banco tomar riscos apostando em uma deflação no futuro, e isso, cria um cenário de incertezas na política monetária nacional e na inflação futura. ?Estamos num momento mais parecido com estagflação que é o de baixo crescimento com inflação ainda alta. E acho que o efeito será o contrário do que o BC prevê. Os preços das commodities, principalmente, as agrícolas, devem continuar subindo por questões climáticas, e isso, aliado à liquidez mundial e desvalorização do dólar?, diz a economista. E acrescenta: ?Se a China crescer menos, a tendência é a que ela valorize o câmbio, investindo menos em infraestrutura e gerando mais consumo interno. Consumo interno estimula mais demanda por commodities agrícolas?. Contudo, esse quadro seria mais arriscado, pois a taxa de câmbio não está valorizando. ?Esse preço maior lá fora, implica em inflação mais alta aqui dentro? diz.  O mercado de trabalho aquecido e a solidez no setor de serviços foram pontos ainda não mencionados pelo BC, que acabou concentrando seus esforços na indústria, por causa do fraco desempenho em que o setor atravessa. ?Mesmo com a desaceleração suave nos serviços e no mercado de trabalho, a inflação dessas áreas continua forte, e, caso a inflação nos alimentos também não caia, isso gera dúvidas para o alcance da meta da inflação para 2012, que deve ficar acima de 5%?, aponta Silvia. Com relação ao crédito, é possível que o BC retome as medidas macroprudenciais. ?Os juros estão caindo não para que tenhamos mais consumo, mas para tentar ajudar o setor produtivo. Nesse aspecto, pode ser bom para a indústria no curto prazo, mas eu diria que lá na frente o pay off dessa queda poder ser mais negativa do que positiva?, alerta. Os R$ 10 bilhões que o governo deverá economizar ao elevar o superávit primário de 2011 podem ter servido como ingrediente para pressionar o BC. ?A medida pode agradar algumas pessoas, mas no frigir dos ovos, o resultado pode ser mais complexo. O mercado pode começar a questionar a independência do BC? conclui a economista. 

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