Os 10 países com as maiores taxas de mortalidade do mundo e variáveis econômicas

Em média, os dez países com as piores conduções da crise de saúde (medido aqui pela taxa de mortalidade), tiveram 787 mortes por um milhão de pessoas, e devem ter uma queda real de 8,9% do PIB e de 9,7% do PIB per capita.

Economia
16/11/2020
Marcel Balassiano

A crise do coronavírus, uma crise de saúde, que tem impactos na economia, já assola o mundo desde o começo do ano. Mais de 1,2 milhão de pessoas já faleceram em quase 200 países, mais de 45 milhões foram infectados, e 33 milhões já se recuperaram. No momento, há quase 12 milhões de casos ativos.[1] Os impactos da pandemia, e dos efeitos para contê-la, são enormes na economia mundial, agora e no futuro. O capital humano perdido com a Covid-19 é muito grande, e precisará ser muito estudado futuramente.

O FMI divulgou projeções para diversas variáveis macroeconômicas na reunião semestral de outubro de 2020 (World Economic Outlook). Com isso, o objetivo deste artigo é verificar o comportamento de algumas variáveis econômicas neste ano, segundo as projeções do Fundo Monetário Internacional, para os dez países com as maiores taxas de mortalidade do mundo. Por questões de subnotificação dos casos, não somente no Brasil, a taxa de mortalidade pode ser um indicador mais preciso do que a taxa de incidência. Também podem ocorrer subnotificações de mortes, pelo menos na causa do óbito, porém numa magnitude menor do que da incidência dos casos, já que a maioria das pessoas não é testada. E é importante controlar pelo tamanho da população também, ao invés de se olhar para o número absoluto de mortes. A taxa de mortalidade também pode gerar distorções, como no caso de San Marino. Por isso esse país foi excluído da amostra, bem como Andorra. [2]

Em média, os dez países com as piores conduções da crise de saúde (medido aqui pela taxa de mortalidade), tiveram 787[3] mortes por um milhão de pessoas, e devem ter uma queda real de 8,9% do PIB e de 9,7% do PIB per capita (Tabela 1). O Peru, país com a maior taxa de mortalidade também deve apresentar o maior recuo da atividade econômica, tanto no PIB quanto no PIB per capita. Dentro dessa amostra, os EUA devem ser o país com a menor perda da economia, e o Brasil o segundo país com o menor recuo (-4,3% e -5,8%, respectivamente). Claro que não é somente a pandemia que interfere na economia. Outras variáveis, principalmente os estímulos (fiscais, em especial) de cada país impactam muito na magnitude da perda da atividade econômica neste ano, como no caso norte-americano. No Brasil também, onde o auxílio emergencial, que beneficiou quase 70 milhões de pessoas, ajudou a economia a não sofrer um tombo maior. Na Europa, onde houve os programas de retenção de emprego, como o Kurzarbeit, na Alemanha, por exemplo.

A Tabela 2 mostra os dados de investimentos e desemprego. Na variação de 2020 (projeções do FMI) com o ano passado, a taxa de investimento (% do PIB) recuou, em média, 1,5 p.p. nos países da amostra. A questão da taxa de investimento pode dar uma falsa impressão,[4] pois caso o PIB e os investimentos sofram uma queda próxima, a taxa tende a se manter constante. Para a taxa cair, é necessário que os investimentos recuem mais do que o nível do PIB.

A taxa de desemprego, variável macroeconômica mais importante para a população, para esses dez países deve ser, em média, de 9,6% em 2020. A taxa brasileira deve ser a segunda maior (13,4%), abaixo apenas da Espanha (16,8%). O aumento do desemprego (projeção de 2020 em comparação com 2019) deve ser, em média, de 3,2 p.p. para os dez países da amostra. Vale ressaltar que a variação da taxa de desemprego no Brasil, segundo as projeções do FMI, não deve ser tão alta (1,4 p.p.), em função do nível alto do desemprego pré-coronavírus. A crise ligada á Covid-19 veio agravar os problemas enfrentados pelo Brasil já há alguns anos, em função da forte recessão de 2014/16 e da recuperação lenta e gradual entre 2017 e 2019. E a principal consequência da recessão passada era a situação do mercado de trabalho, que também foi agravada com a pandemia.

Outro ponto a ser destacado é que não devemos olhar somente para a taxa de desemprego, pois também há milhões de pessoas que não procuram trabalho, mas gostariam de trabalhar (desalentados), e ficam fora da estatística do desemprego, e acabam por “mascarar” um pouco o número real. Antes do coronavírus, o Brasil tinha quase 70 milhões de pessoas numa situação mais vulnerável do mercado de trabalho, entre desempregados, desalentados, subocupados e informais, magnitude próxima dos beneficiários do auxílio emergencial.   

Com a pandemia, não tinha outro jeito se não o Governo gastar. Com isso, os déficits vão ser enormes, e as dívidas vão crescer substancialmente. Na média dos dez países, o déficit primário será de 9,6% do PIB, um aumento de 8,2 p.p. em relação ao déficit de 2019. Já a dívida bruta média será de 85,8% do PIB, 16,0 p.p. acima do nível da dívida do ano passado (Tabela 3).[5]

O Brasil já vive uma situação fiscal bastante complicada já há alguns anos, tendo voltado a apresentar déficits primários em 2014, e permanecendo no “vermelho” desde então. A dívida bruta (conceito BCB) cresceu de pouco mais de 50% do PIB em 2013 para mais de 75% em 2018, e recuou levemente no ano passado. Com a crise de 2020, em setembro, a dívida bruta já ultrapassou os 90% do PIB (90,6%). A situação fiscal do Brasil já era delicada no ano passado, e com o coronavírus, se agravou mais ainda. O Brasil, assim como a maior parte do mundo, sairá dessa crise mais endividado. O problema é que o crescimento da nossa dívida não começou em 2020, mas já vem de uns sete anos atrás.

Em resumo, esse artigo procurou mostrar como o FMI projeta o desempenho da economia dos dez países com a pior situação na crise do coronavírus, aqui medido pela taxa de mortalidade (média de 787 mortes por um milhão de pessoas). Em média, esses países terão neste ano uma contração do PIB de 8,9% e de 9,7% do PIB per capita, com uma diminuição, na comparação com 2019, de 1,5 p.p. da taxa de investimentos e uma taxa de desemprego de 9,6% (3,2 p.p. maior do que no ano passado). Sobre os dados fiscais, os dez países devem ter um déficit primário médio de 9,6% do PIB, sendo isso um acréscimo de 8,2 p.p. no déficit, na comparação com 2019. E uma dívida bruta média de 85,8% do PIB, 16,0 p.p. acima do nível do ano passado.


[1] Dados até 31/10/20, segundo o site Worldometers.

[2] San Marino e Andorra, respectivamente primeiro e quarto na classificação, foram excluídos da amostra pois são países com populações muito pequenas (33,9 mil e 77,3 mil pessoas). Em números absolutos, os óbitos foram de 42 e 75.  A taxa por um milhão de habitantes fica muito alta (1237 e 970).  

[3] Até 31/10/20.

[4] Sobre isso, ver “Mais uma década perdida de investimentos”, de Marcel Balassiano, Juliana Trece e Claudio Considera (Blog do IBRE, 26/10/20).

[5] Vale frisar que a dívida bruta brasileira da Tabela 3 é do FMI, e existe uma diferença de metodologia entre a dívida bruta divulgada pelo Banco Central e a divulgada pelo FMI. Basicamente a dívida bruta do conceito do FMI é a dívida bruta (conceito BCB) mais os títulos emitidos pela STN que estão na carteira do Banco Central e os débitos de responsabilidades das empresas estatais dos três níveis de governo (federal, estadual e municipal, excluindo a Petrobras e Eletrobras). Entre 2006 e 2019, a média da diferença foi de 8,9 p.p.. No ano passado, a diferença foi de 13,7 p.p., já que a DBGG foi de 75,8% do PIB para o BCB e 89,5% para o FMI.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

Autor(es)

  • Marcel Balassiano

    Economista da área de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia (FGV IBRE). Mestre em Economia Empresarial e Finanças pela EPGE Escola Brasileira de Economia e Finanças (FGV EPGE), mestre em Administração pela Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (FGV EBAPE) e bacharel em Economia pela FGV EPGE.

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