Baixo crescimento da produtividade do trabalho no Brasil: uma análise dos resultados setoriais desde meados da década de 90

O objetivo deste texto é mostrar a evolução da produtividade dos grandes setores da economia e da economia como um todo desde 1995.

Economia
11/12/2019
Fernando Veloso
Silvia Matos
Paulo Peruchetti

Com o fim do bônus demográfico, a única forma de aumentar a renda per capita e gerar crescimento sustentável no Brasil nas próximas décadas será por meio da elevação da produtividade do trabalhador. Por isso, discussões sobre o tema de produtividade ganham cada vez mais importância.

Diante da relevância do tema e com o objetivo de contribuir ainda mais para a discussão, o FGV IBRE lançou recentemente o site Observatório da Produtividade, reunindo uma ampla base de dados sobre produtividade para a economia brasileira, além de estudos e análises, a fim de fornecer informações para uma maior compreensão do tema e contribuir para a formulação de políticas públicas que possam aumentar a produtividade e impulsionar o crescimento econômico.[1]

O objetivo deste texto é mostrar a evolução da produtividade dos grandes setores da economia e da economia como um todo desde 1995, atualizando os resultados apresentados em Veloso, Matos e Coelho (2014).[2]

Em geral, a literatura de produtividade utiliza a população ocupada como medida de insumo do fator trabalho. No entanto, isso não leva em consideração a tendência observada em diversos países, inclusive no Brasil, de redução da jornada de trabalho. Em consequência disso, o crescimento do fator trabalho pode estar sendo superestimado quando se usa o número de pessoas empregadas, o que, por sua vez, resulta em um cálculo subestimado do aumento da produtividade.[3] Diante deste contexto, os resultados apresentados neste texto utilizarão como insumo do fator trabalho o total de horas trabalhadas na economia.[4]

O Gráfico 1 mostra a evolução da produtividade por hora trabalhada no Brasil para o agregado da economia e os três grandes setores (agropecuária, indústria e serviços) desde meados da década de 1990.[5]

Gráfico 1: Evolução da produtividade por hora trabalhada para o agregado da economia e para os três grandes setores (agropecuária, indústria e serviços) – Brasil: 1995 até 2018 – Em R$ de 2017

 

O único setor que apresentou crescimento robusto desde 1995 foi a agropecuária. Entre 1995 e 2018, o crescimento médio da produtividade por hora trabalhada deste setor foi de 6,8% ao ano (Tabela 1). Ao longo do período analisado, o maior crescimento da produtividade da agropecuária ocorreu no período 2007-2013 (7,5% ao ano).

O desempenho da produtividade da indústria desde meados da década de 90 foi muito negativo, com queda de 0,2% ao ano entre 1995 e 2018, passando de R$ 32,7 por hora trabalhada para R$ 31,1 por hora trabalhada. O período entre 1995 e 2002 foi o de pior desempenho da produtividade da indústria, com redução de 2,3% ao ano. Nota-se, ainda, no período pós crise, entre 2013 e 2018, um baixo crescimento da produtividade da indústria (0,5% ao ano), inferior, inclusive, ao observado nos períodos 2002-2007 e 2007-2013, que foi de 0,8% ao ano.

A produtividade do setor de serviços, que concentrou em 2018 mais de 70% das horas trabalhadas e do Valor Adicionado, também tem apresentado um desempenho muito negativo. O baixo crescimento desde 1995, de cerca de 0,3% ao ano, fez com que a produtividade por hora trabalhada crescesse pouco ao longo de todo o período, passando de R$ 30,1 em 1995 para cerca de R$ 32 em 2018. Após um período de expansão entre os 3 anos de 2002 a 2013, a produtividade do setor de serviços apresentou forte queda, de 1,5% ao ano, entre 2013 e 2018.

O péssimo desempenho do setor de serviços impactou negativamente a produtividade agregada, que apresentou crescimento de apenas 1% entre 1995 e 2018. Nos períodos 2002-2007 e 2007-2013 a produtividade agregada teve seu melhor desempenho, com crescimento um pouco acima de 2%, coincidindo com o período de maior crescimento da produtividade do setor de serviços. Além disso, nota-se uma queda de 0,4% ao ano entre 2013 e 2018, que abrange a recessão e o período de lenta recuperação da economia.

Tabela 1: Crescimento médio da produtividade por hora trabalhada dos principais setores da economia – – Brasil – Períodos Selecionados [em % ao ano][6]

 

Esses resultados mostram que, por trás do baixo crescimento da produtividade agregada brasileira desde 1995, existe grande heterogeneidade na trajetória da produtividade do trabalho nos diferentes setores da economia. Diante disso, analisar de forma desagregada os setores da indústria e dos serviços nos ajuda a entender melhor a dinâmica da produtividade média nesses setores.

O Gráfico 2 apresenta os dados de produtividade por hora trabalhada na indústria de transformação e na construção civil, que são os dois subsetores da indústria que mais empregam trabalhadores e que mais concentram horas trabalhadas.[7]

Gráfico 2: Evolução da produtividade por hora trabalhada para os subsetores da indústria (indústria de transformação e construção civil) – Brasil: 1995 até 2018 – Em R$ de 2017

 

O desempenho ruim da indústria de transformação e da construção civil explica a queda da produtividade da indústria agregada ao longo do período analisado. Entre 1995 e 2018, a produtividade da indústria de transformação recuou cerca de 0,7% ao ano, enquanto que a produtividade da construção civil diminuiu 1% ao ano (Tabela 1). Entre meados da década de 90 e o início dos anos 2000, a produtividade da indústria de transformação recuou mais de 3% e a da construção civil cerca de 2,5%. No período pós recessão, entre 2013 e 2018, o subsetor da indústria que teve pior desempenho foi a construção civil, que apresentou queda de produtividade de 2,9% ao ano.[8]  Na indústria de transformação, no entanto, a queda foi bem menor (0,9% ao ano).

O Gráfico 3 mostra uma situação ainda mais dramática, que é o péssimo desempenho das principais atividades que compõem o setor de serviços (transporte, comércio e outros serviços) que, por concentrarem a maior parte da mão de obra e do Valor Adicionado, acabam por influenciar negativamente a produtividade média do setor.[9]

Gráfico 3: Evolução da produtividade por hora trabalhada para os subsetores do setor de serviços (transporte, comércio e outros serviços) – Brasil: 1995 até 2018 – Em R$ de 2017

 

O Gráfico 3 e a Tabela 1 mostram que a produtividade do setor de transporte e de outros serviços apresentaram taxas negativas de crescimento entre 1995 e 2018. Enquanto que no setor de transporte a queda foi de 0,5% ao ano, no de outros serviços o recuo foi de 0,2% ao ano. Já no comércio a produtividade por hora trabalhada ficou estagnada ao longo deste período.

Após um período de crescimento modesto entre 2003 e 2013, a produtividade por hora trabalhada nos subsetores dos serviços sofreu com os efeitos da recessão iniciada em meados de 2014, que afetou de forma muito negativa a produtividade destas atividades. Os setores de transporte e outros serviços apresentaram quedas mais acentuadas, 2% e 2,4% ao ano, respectivamente, entre 2013 e 2018. No mesmo período, a produtividade do comércio caiu 1,6% ao ano.

Em resumo, o baixo crescimento da produtividade agregada desde 1995 está relacionado principalmente ao desempenho do setor de serviços, que concentra cerca de 70% das horas trabalhadas no país e tem apresentado taxas negativas de crescimento desde o final de 2014. Dentro do setor de serviços, os setores de transporte e de outros serviços, que correspondem a cerca de 52% das horas do setor, têm sido os principais responsáveis pela queda da produtividade nos últimos anos.

Referências

BARBOSA FILHO, F.; PESSÔA, S. Pessoal ocupado e jornada de trabalho: uma releitura da evolução da produtividade no Brasil. Revista Brasileira de Economia, v. 68, n. 2, p. 149-169, 2014.

VELOSO, F.; MATOS, S.; PERUCHETTI, P. Nota metodológica dos indicadores anuais de produtividade do trabalho setorial no Brasil. 2019.

VELOSO, F.; MATOS, S.; COELHO, B. Produtividade do trabalho no Brasil: uma análise setorial. In: Veloso, F.; Bonelli, R. (Orgs.). Ensaios IBRE de economia brasileira II. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora Elsevier, v. 1, p. 75-107, 2014.


[1] O site, disponível no endereço https://ibre.fgv.br/observatorio-produtividade, foi lançado no dia 4 de dezembro de 2019 no I Seminário de Produtividade e Reformas.

[2] As séries históricas desta nota estão disponíveis no site Observatório da Produtividade.

[3] Ver Barbosa Filho e Pessôa (2014).

[4] As medidas de produtividade agregada e setorial foram construídas dividindo-se o Valor Adicionado obtido das Contas Nacionais pelo total de horas trabalhadas em todas as ocupações, obtido da PNAD e da PNAD Contínua. A metodologia de construção dos indicadores setoriais de produtividade do trabalho pode ser encontrada em Veloso, Matos e Peruchetti (2019).

[5] A partir de 2012, os resultados anuais discutidos neste relatório são os mesmos apresentados no último Relatório de Resultados dos Indicadores Trimestrais de Produtividade (acumulado em 4 trimestres) divulgado no Observatório da Produtividade

[6] Na Tabela 1, o primeiro ano de cada período refere-se ao ano base da análise.

[7] Juntos, a indústria de transformação e a construção civil concentram mais de 90% das horas alocadas no total da indústria, sendo 57% destinada à indústria de transformação e 36% destinada à construção civil.

[8] A revisão da série de Valor Adicionado da construção civil, divulgada recentemente pelo IBGE, gerou uma forte revisão do crescimento da produtividade deste setor nos anos de 2017 e 2018, passando de queda de 0,6% para redução de 2,5% e alta de 0,4% para recuo de 0,9%, respectivamente.

[9] Estes três setores concentram cerca de 80% das horas trabalhadas no setor de serviços, sendo 29% destinado ao comércio, 8% ao setor de transportes e 43% ao setor de outros serviços

* Publicado originalmente no Observatório da Produtividade do FGV IBRE.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

Autor(es)

  • Fernando Veloso

    Possui graduação em Economia pela Universidade de Brasília(1989), mestrado em Economia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro(1993) e doutorado em Economia pela University of Chicago (1999). Atualmente é Membro de corpo editorial da Pesquisa e Planejamento Econômico (Rio de Janeiro), Revisor de periódico da Pesquisa e Planejamento Econômico (Rio de Janeiro), Revisor de periódico da Brazilian review of econometrics, Revisor de periódico da Revista Brasileira de Economia (Impresso), Revisor de periódico da Revista de Economia Aplicada, Revisor de periódico da Estudos Econômicos (USP. Impresso) e Pesquisador do Fundação Getulio Vargas. Tem experiência na área de Economia, com ênfase em Crescimento, Flutuações e Planejamento Econômico. Atuando principalmente nos seguintes temas:fecundidade, distribuição de riqueza, modelo de crescimento, capital humano, mobilidade intergeracional.

  • Silvia Matos

    Mestre e doutora em Economia pela EPGE Escola Brasileira de Economia e Finanças (FGV EPGE). Possui graduação em Economia pela Universidade Estadual de Campinas (1995). Ex-economista do Departamento de Pesquisa do Banco BBM. Professora do Mestrado Profissional em Economia da FGV EPGE e coordenadora técnica do Boletim Macro IBRE. 

  • Paulo Peruchetti

    Assistente de pesquisa da área de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia (FGV IBRE). Mestre em Economia Empresarial e Finanças pela FGV EPGE e bacharel em Economia pela UFF. Trabalhou no acompanhamento e na elaboração das projeções dos principais indicadores macroeconômicos da economia brasileira. Atualmente atua na elaboração de estudos sobre desenvolvimento econômico, mercado de trabalho e produtividade.

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