O ”Boom” das plataformas de Delivery no Brasil e suas consequências peculiares

Somente no Brasil já são mais de 250 aplicativos atuando como plataformas de conexão entre clientes e estabelecimentos. 

Administração
13/04/2022
Rubens Mussolin Massa

Dentre todas as novidades trazidas pela Pandemia, um fenômeno dentre eles se destaca. A ascensão do uso de plataformas de delivery, em especial no segmento alimentício.

Tal fenômeno é de proporções mundiais, mas o Brasil traz suas peculiaridades. Dentre elas, a hegemonia do iFood, que hoje é responsável por atender mais de 80% da demanda existente formando uma hiper concentração mercadológica, que não chega a ser um monopólio, mas traz consequências que dizem respeito ao cenário que proponho apresentar.

Primeiramente é importante compreendermos o cenário. O Brasil é responsável por aproximadamente 50% de toda a movimentação de delivery alimentício por plataformas na América Latina. A partir de 2020, início da Pandemia, também quase metade dos estabelecimentos passaram a adotar canais virtuais para vendas.

Somente no Brasil já são mais de 250 aplicativos atuando como plataformas de conexão entre clientes e estabelecimentos. E parte destes já incluem, não apenas alimentação, mas pet shops, farmácias e outros serviços de conveniência ao cliente associada à comodidade de receber em casa o que se precisa ou deseja. Seja pelo conforto, seja pelo medo de se expor ao vírus.

Somente em 2020, conforme análise realizada pela Mobills, o delivery de alimentos subiu 187% no Brasil com gastos médios por usuários aproximadamente R$100, segundo estudo realizado com 46.000 usuários. Em 2021, segundo dados da Abrasel, Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, as vendas por delivery no mercado alimentício movimentaram aproximadamente R$35 bilhões, 20% das vendas do setor.

Neste cenário pujante, o ifood é responsável por 83% da movimentação, se não incluirmos o whatsapp como plataforma (neste caso a participação do iFood ficaria ainda assim em 68%). Dentre as plataformas especializadas é seguido pelo Uber eats com 13% e o Rappi com 4%. Segundo o CADE, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica do Governo Federal, quando há mais de 20% de participação em mercados por uma única marca existe potencial risco ao livre comércio. O que, por si só, já demonstra a influência e poder do iFood no segmento e os proporcionais riscos associados, que tornam o mercado brasileiro peculiar ao observarmos o fenômeno de crescimento exponencial do uso dos serviços de delivery, e em especial no segmento alimentício.

Para melhor compreensão, é importante compreender por que a “hiper concentração” ameaça em diversas dimensões a livre concorrência. Apesar de não haver nenhuma regulamentação que o privilegie, a supremacia mercadológica da marca impõe características ao cenário que o moldam em grande parte. A citar: a plataforma se torna uma necessidade para os estabelecimentos podendo assim esta impor políticas e cobrar taxas que possam ser eventualmente abusivas;  favorecem contratos de exclusividade com marcas âncora (aquelas conhecidas e que atraem mais usuários às plataformas comerciais em geral) em detrimento de outras plataformas; há naturalmente o avanço para outras dimensões da cadeia de entrega  com vantagens comerciais potencialmente desleais aos seus clientes em relação às outras plataformas, dentre outros. Em parte por este contexto, por exemplo, o Uber eats, vice-líder de mercado, anunciou sua saída do mercado brasileiro, piorando o cenário da “hiper concentração”.

Diante deste fenômeno, dentre as alternativas encontradas pelos estabelecimentos parceiros, em sua maioria restaurantes, está a busca de plataformas próprias construída sob demanda ou alugadas de empresas especializada, que diante desta dor do mercado, se posicionam como alternativa.

Porém, a “hiper concentração” de clientes no iFood torna esta estratégia apenas parcialmente aceitável. Isto, porque apesar de oferecerem estrutura semelhante de software e até ajudarem na montagem de uma estrutura própria de delivery, estas não trazem consigo a principal razão dos estabelecimentos buscarem o iFood, a massa de clientes habituados a utilizar a plataforma. E portanto, não os livram de suas taxas altas e limitações das políticas apresentadas.

Sem dúvida, há questões filosóficas, e assim, sem respostas objetivas, a serem consideradas. Perguntas como se não é mérito da marca o que conquistou e se colher os frutos deste crescimento sem favorecimentos, trouxe não lhe é um direito sem dúvidas permeiam a discussão a depender (ou não) da perspectiva ideológica do leitor. Porém, trago aqui dados e argumentos que possam refletir um cenário que permita que cada um possa elaborar sua própria visão sobre o fenômeno do crescimento do delivery no Brasil, suas consequências e então pensar suas próprias estratégias de atuação.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

Autor(es)

  • Rubens Mussolin Massa

    Rubens Mussolin Massa é professor da disciplina de Empreendedorismo e Novos Negócios na Graduação da EAESP e atua como Coordenador da Rede de Empresas Familiares do Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da Escola. É mestre e doutor em Estratégia Empresarial, com ênfase em Empreendedorismo e Processo Decisório pela FGV EAESP e pesquisador visitante da Universidade de Sydney (Austrália).

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