O coronavirus 2019

Apesar de o número de casos ser bastante grande e sua disseminação rápida, a mortalidade por este vírus tem sido relativamente baixa, muito mais concentrada numa população mais frágil (a dos idosos). Não há vacina, o contágio se dá pessoa a pessoa mas algumas medidas simples, como lavar as mãos, evitar contato desnecessários com pessoas e cobrir a boca ao tossir, têm se mostrado eficazes.

Políticas Públicas
05/02/2020
Ana Maria Malik

Volta e meia a população é confrontada com uma nova epidemia, com um novo vírus, que aparece em algum lugar, onde ocorrem muitos casos e as informações e desinformações se multiplicam. Não faz tanto tempo, tivemos epidemias do vírus H1N1, SARS... Janeiro de 2020 foi o mês em que o coronavirus 2019 (Covid-19) começou a ganhar as manchetes dos noticiários, online, escritos, televisivos e, como sempre, há muitos assuntos em torno dele.

A primeira coisa a saber é que, apesar de o número de casos ser bastante grande e sua disseminação rápida, a mortalidade por este vírus tem sido relativamente baixa, muito mais concentrada numa população mais frágil (a dos idosos). Neste caso não há vacina, o contágio se dá pessoa a pessoa mas algumas medidas simples, como lavar as mãos, evitar contato desnecessários com pessoas e cobrir a boca ao tossir, têm se mostrado eficazes.

Algumas atitudes de impacto ou de grande visibilidade têm sido tomadas. Brasileiros que se encontram na China nos primeiros dias de fevereiro pediram para ser repatriados. O mesmo ocorreu com franceses e com estadunidenses. O governo do Canadá, mesmo com grande população de chineses que lá habita, ainda se mobilizou com a mesma intensidade.  Um jornal de grande circulação português postou em manchete a quantidade de mortes por pneumonia, muito maior que a desta doença, para colocar o coronavirus 2019 (Covid-19) em perspectiva.

Por outro lado, o governo chinês assombrou o mundo com a decisão de construir em 10 dias um hospital de 1000 leitos. Isto chamou a atenção pois este prazo é praticamente inédito. No entanto, é necessário pensar no que significam estes 1000 leitos. Em primeiro lugar, estamos falando da população da China. Em segundo lugar, há que pensar qual a intensidade tecnológica de que estes leitos disporão: possivelmente servirão para realizar o diagnóstico e manter os doentes em boas condições hemodinâmicas, enquanto a doença não passa. Em terceiro lugar, é louvável a capacidade que o governo daquele país teve de mobilizar uma grande quantidade de trabalhadores e de desenhar um processo de produção muito ágil para a construção utilizando pré-moldados. Fica, no entanto, o alerta para quem se interessa por realizar um tour de force semelhante de que talvez esses hospitais deixem de ser necessários num período de tempo curto. Ou que deles sejam reorientados para novas finalidades.

Ter medo é importante para desenvolver cautela. O número de casos pelo mundo continuará a aumentar e provavelmente haverá doentes no Brasil. O pânico parece, neste momento, porém, ser descabido. Olhar com desconfiança para quem chegou da China, buscar remédios e máscaras para se cuidar não tem um efeito duradouro. Isto acaba trazendo mais um pouco da chamada medicalização da sociedade, em que produtos substituem hábitos e trazem segurança. Informação sempre é um dos melhores remédios e, se bem utilizada, traz poucos efeitos colateriais.  

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

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Autor(es)

  • Ana Maria Malik

    Graduada em Medicina pela USP, mestre em Administração de Empresas pela Fundação Getulio Vargas e doutora em Medicina (Medicina Preventiva) pela USP. Professora Titular da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (FGV EAESP), acadêmica eleita para a Academia Brasileira da Qualidade. Atualmente é parecerista ad hoc de diversas revistas de gestão e de saúde, membro de conselho editorial da Revista Einstein, professora convidada da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, membro do conselho da Alass (Associação Latina para Análise dos Sistemas de Saúde), e da Fundação para Segurança do Paciente. É Coordenadora do FGVsaúde da FGV EAESP, diretora adjunta do PROAHSA da FGV e coordenadora da linha de saúde do Mestrado Profissional em Gestão para a Competitividade (MPGC) da FGV EAESP.