Covid-19: O maior desafio mundial desde a Segunda Guerra

A dificuldade de prever o tamanho da epidemia, e de aferir o seu impacto sobre a economia, torna quase impossível projetar para onde vão o nível de atividade e outros indicadores econômicos este ano. Qualitativamente, porém, podemos projetar um cenário

Economia
25/03/2020
Silvia Matos
Armando Castelar Pinheiro

Poucas vezes no passado houve um nível tão alto de incerteza, só comparável à apreensão com que a sociedade vê a crise de saúde pública se aprofundar. A velocidade com que o vírus se espalha, aqui e lá fora, é incomparavelmente maior que a capacidade de se produzirem indicadores de seus impactos sobre a economia. A dificuldade de prever o tamanho da epidemia, e de aferir o seu impacto sobre a economia, torna quase impossível projetar para onde vão o nível de atividade e outros indicadores econômicos este ano. Qualitativamente, porém, podemos projetar o seguinte cenário.

Primeiro, a economia sofrerá quase certamente uma crise sem precedentes. Dificilmente o Brasil escapará de uma recessão potencialmente profunda este ano. O mundo também não. A maior contração do PIB no Brasil, nos EUA e na Europa deve se dar no segundo trimestre. Ao contrário de crises anteriores, como a Grande Crise Financeira de 2008-09, o setor de serviços deve ser especialmente afetado. Esperamos que, na segunda metade do ano, haja uma recuperação, mas é pouco claro se ela será rápida ou diluída em horizonte mais largo. O exemplo da China mostra que no meio urbano a normalidade econômica custará a voltar, mesmo depois de a epidemia estar sob algum controle.

Segundo, a queda da atividade ajudará no controle da inflação, para o que também contribuirá a forte redução do preço de petróleo. As projeções para a alta de preços este ano, que já estavam bem abaixo da meta, cairão ainda mais. É provável que a queda de atividade e a forte desvalorização do real também reduzam o déficit externo do país.

Terceiro, a situação das contas públicas vai se deteriorar severamente. Com a queda da atividade e do emprego, além do preço mais baixo do petróleo, as receitas públicas vão sofrer forte contração. E, por outro lado, os governos, nos três níveis, serão chamados a realizar novos gastos, na saúde e em programas de compensação e estímulo.

Quarto, e mais preocupante, a crise terá uma vertente social dramática. O combate à pandemia requer medidas de restrição de funcionamento da grande maioria dos estabelecimentos, incluindo vários já afetados pelo “distanciamento social”, como cinemas, restaurantes, oficinas etc. Construção, comércio, transporte e outros serviços, que devem estar entre os mais seriamente afetados, são grandes empregadores e apresentam elevado nível de informalidade. Paralelamente, a crise afetará de forma desproporcional as micro, pequenas e médias empresas, que terão maior dificuldade de lidar com a dramática queda esperada de receitas. Essas são também as empresas que mais empregam, inclusive muitos trabalhadores sem carteira. Muitos trabalhadores terão uma brutal redução de sua renda mensal.  E muitos serão demitidos. Se medidas não forem tomadas, o desemprego vai subir forte e rapidamente. Sem renda, e em geral sem reservas financeiras, os trabalhadores informais e os de baixa renda terão dificuldade de sobreviver.

No Brasil, o governo, claro, está ciente disso tudo, ainda que a dificuldade de fazer previsões dificulte dimensionar e distribuir no tempo as medidas de estímulo e compensação. Vale registrar até aqui, além da redução da taxa de juros para 3,75%, medidas de estímulo fiscal que o governo tem adotado, direcionadas a empresas e famílias: antecipação do pagamento do abono salarial e décimo-terceiro salário dos aposentados e pensionistas do INSS; aumento dos recursos do Bolsa Família (em torno de R$ 3 bilhões); liberação de R$ 15 bilhões em benefícios de até R$ 200,00 para trabalhadores informais e autônomos por três meses; postergação de pagamento de dívidas em até 60 dias; adiamento, por três meses, do pagamento de tributos federais  para empresas; mudanças no crédito consignado para aposentados e pensionistas do INSS, para reduzir taxas e ampliar prazos; e também podem se liberar mais saques do FGTS. O pacote emergencial pretende injetar R$ 147 bilhões na economia. O BNDES também anunciou um pacote de medidas e o Banco Central promoveu uma série de iniciativas, do aumento da liberação de compulsórios bancários à elevação da garantia aos depósitos para um milhão de reais, o que vai ajudar os pequenos e médios bancos a mitigar problemas de liquidez.

Nos preocupa, porém, se essas medidas serão suficientes para criar uma rede de proteção social adequada, principalmente para os trabalhadores informais, pela dificuldade de chegar a eles e porque o valor que se propõe transferir é muito baixo, não substituindo senão uma parcela pequena da sua renda. A renda média mensal de um trabalhador informal ou conta própria sem CNPJ está na faixa de R$ 1.300,00 a R$ 1.350,00 (rendimento médio mensal em 2019), com mais de 50% recebendo valores iguais ou superiores a um salário mínimo. Já um trabalhador conta própria com CNPJ ganha em média em torno de R$ 3.125,00 (rendimento médio mensal em 2019), com apenas 12% recebendo valores inferiores a um salário mínimo. Além disso, para as empresas que empregam trabalhadores formais, haveria a necessidade de se garantir pelo menos parte do salário, que deveria ser custeado pelo governo, através de um “seguro pandemia”, similar ao seguro desemprego. Medidas nessa direção já têm sido adotadas em outros países.

É o momento de se garantir renda para as famílias e evitar uma falência generalizada de empresas. Esta crise está ocorrendo em um momento de elevada informalidade no mercado de trabalho e de baixo crescimento da renda. O risco de ocorrer uma crise social severa no Brasil, principalmente nas grandes cidades, é elevado. E caso não se garanta a sobrevivência dessas pessoas também não se controlará a pandemia, pois estes trabalhadores e seus familiares irão para as ruas buscar renda de alguma forma.

Do ponto de vista externo, a pandemia está ocorrendo em um período atípico para as economias desenvolvidas. Fora dos EUA, o crescimento econômico vinha sendo muito lento, com baixo investimento, inflação em patamares historicamente muito reduzidos e com taxas de juros internacionais em níveis também muito baixos. A pandemia terá impactos negativos sobre todo esse quadro, afetando tanto a oferta (interrupção na produção) como a demanda (restrição de circulação de pessoas, redução da renda das famílias), com efeito líquido deflacionário.

Diante desse quadro, o Fed derrubou a taxa de juros, com medidas complementares de injeção de liquidez, desencadeando um movimento sincronizado de afrouxamento monetário mundial. Porém, diferentemente do que ocorreu em 2008, a origem da atual crise não é financeira, o que demanda políticas econômicas adicionais para amenizar o choque recessivo. Diversos países estão adotando políticas fiscais agressivas. Até a Alemanha, com todo seu rigor fiscal, que às vezes até parece exacerbado, tem anunciado políticas fiscais muito expansionistas, prevendo inclusive a atuação de bancos de desenvolvimento. As medidas anunciadas já se situam na casa dos trilhões de dólares. Como destacou a chanceler alemã, Angela Merkel, em seu discurso de 18 de março, “[d]esde a unificação alemã, desde a Segunda Guerra Mundial, não houve desafio para nosso país em que nossa ação conjunta fosse tão necessária”. Ou seja, os impactos econômicos e sociais da pandemia do coronavírus são apenas comparáveis a um período de guerra mundial.

Confira a íntegra do Boletim Macro do FGV IBRE.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

Autor(es)

  • Silvia Matos

    Coordenadora do Boletim Macro IBRE, responsável pela elaboração dos Cenários Macroeconômicos do Instituto. É Professora do Mestrado Profissional em Economia da FGV EPGE desde 2004.  Foi economista do Departamento de Pesquisa do Banco BBM (2005-2008). Entre 2009 e 2010 foi coordenadora do Núcleo de Soluções da Superintendência de Clientes Institucionais do FGV IBRE, atuando na área de Projeções Econômicas e Análises Setoriais. Possui publicações nas áreas de macroeconomia e crescimento econômico. Bacharel em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Mestre e Doutora em economia pela Escola de Pós-Graduação em Economia (FGV EPGE). Eleita Economista-Chefe 2019 pela Ordem de Economistas do Brasil.

  • Armando Castelar Pinheiro

    Coordenador de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia (FGV IBRE) e professor do Instituto de Economia da UFRJ. Atuou como analista da Gávea Investimentos, pesquisador do IPEA e chefe do Departamento Econômico do BNDES, tendo lecionado nos programas de pós-graduação da PUC-Rio e da FGV EPGE. Castelar é Ph.D. em Economia pela Universidade da Califórnia, Berkeley, formado em Engenharia Eletrônica pelo ITA e mestre em Estatística pelo IMPA e em Administração de Empresas pela COPPEAD. É membro do Conselho Superior de Economia da FIESP e articulista dos jornais Valor Econômico e Correio Braziliense.

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