COVID-19 x Opep x Rússia

Ainda é cedo para concluir se há uma nova estrutura de mercado em vigor com preços estruturalmente mais baixos. Na verdade, preços baixos não são bons para ninguém. Perdem as economias exportadoras OPEP e Rússia, que têm suas economias fortemente alavancadas nas exportações de petróleo; perde também a economia brasileira, visto que o país exporta aproximadamente 600 a 700 mil barris por dia

Institucional
10/03/2020
Fernanda Delgado
Thiago Toledo

O aumento da disseminação do COVID-19 afeta diretamente na comercialização de bens e produtos. A China, como maior importador de óleo cru mundial, já deixou de consumir três milhões de barris por dia, o que corresponde a produção atual diária brasileira. Tal acontecimento impacta diretamente no mercado nacional e nas empresas relacionadas ao setor. Cerca de 72% das exportações de petróleo da Petrobras são direcionadas para a China. Este e outros fatores levaram à queda de mais de 20% no valor das ações da Petrobras (PETR3; PETR4) ontem (09/03), e 43% no acumulado desde a data da publicação do primeiro caso de COVID-19.

Em 9 de março de 2020 os mercados de petróleo e financeiro amanheceram agitados com o preço do Brent perdendo mais de um quarto de seu valor - aproximadamente USD 36 o barril, depois que a Arábia Saudita aumentou a produção e cortou os preços oficiais em um mercado que já estava sofrendo com o arrefecimento da demanda impactado pelo coronavírus. Esta redução de preços oficiais de venda, aliada ao aumento de produção de petróleo para o próximo mês, vem como resposta Árabe depois que a Rússia se recusou a fazer um novo corte na produção proposto pela Opep para estabilizar os mercados de petróleo.

A preocupação com a perda de market shake e com a capacidade europeia em conter o vírus, assim como a China o fez, levou a desintegração do agrupamento denominado Opep +  encerrando mais de três anos de cooperação e de influência altista nos preços. Alinhado a esta conjuntura mundial, a Opep planejava anunciar um novo acordo de corte de produção de petróleo para segurar a queda do preço do barril. Como retaliação ao fracasso do acordo, a Arábia Saudita – principal player da organização – reduziu seus preços e se prepara para aumentar a produção, como parte de uma campanha agressiva para arrebatar parte da fatia de mercado russo. A questão é até onde a Arábia Saudita tem fôlego para aguentar preços do barril a patamares mais baixos e que não afetem sua economia.

O colapso do acordo traz a perspectiva de os maiores produtores mundiais de petróleo continuem a produzir em alta escala enquanto a demanda mundial de petróleo está diminuindo devido à crise. Este desalinhamento entre demanda e oferta fez com que os preços do barril chegassem a patamares de 2016, quando o mesmo chegou ao menor nível histórico. No último domingo, o valor do WTI[1] e Brent[2] chegaram a cair 20% no mercado futuro asiático, sendo negociado a US$ 36,62 o barril, afetando a bolsa de valores de diversos países no mundo.

Ainda é cedo para concluir se há uma nova estrutura de mercado em vigor com preços estruturalmente mais baixos. Na verdade, preços baixos não são bons para ninguém. Perdem as economias exportadoras OPEP e Rússia, que têm suas economias fortemente alavancadas nas exportações de petróleo, e podem ter seus orçamentos comprometidos. Neste cenário, perde também a economia brasileira, visto que o país exporta aproximadamente 600 a 700 mil barris por dia, e há uma redução direta de receita de exportação atrelada à queda do preço do barril. Adicionalmente, os cálculos de royalties e participações especiais que arrecadam estados e municípios levam em consideração os preços internacionais, e quanto mais baixos estes, menores estas arrecadações.

Vale destacar que preços de petróleo baixos demais tornam novos projetos de petróleo inviáveis, desestabilizam projetos green field e colocam novos leilões de área de exploração em risco. No caso do pré sal brasileiro, a Petrobras trabalha com um preço de equilíbrio entre USD 35 a 45 por barril, o que significa que preços abaixo deste intervalo tornam o projeto menos atrativo e ariscado.

Por fim, mas não menos importante, em uma análise preliminar para esta segunda-feira de mercados derretidos, é importante mencionar que preços de petróleo baixos fazem com que este energético permaneça nas matrizes energéticas por ainda mais tempo, tornando menos atrativos investimentos em fontes alternativas de energia, tão importantes ao mundo hoje em épocas de aquecimento global e mudanças climáticas.  


[1] West Texas Intermediate, petróleo originário do Texas, Estados Unidos

[2] Petróleo originário do Mar do Norte

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

Autor(es)

  • Fernanda Delgado

    Professora e Assessora Estratégica na FGV Energia. Doutora em Planejamento Energético, dois livros publicados sobre Petropolítica e professora afiliada à Escola de Guerra Naval e à Escola Superior de Guerra. Experiência profissional em empresas relevantes, no Brasil e no exterior, como Petrobras, Deloitte, Vale SA, Vale Óleo e Gás, Universidade Gama Filho e Agência Marítima Dickinson. Na FGV Energia é responsável pelas linhas de pesquisa do setor de petróleo, gás e biocombustíveis, destacando-se: Descomissionamento, Downstream, Reservatórios de baixa permeabilidade, Reservas de gás natural, Veículos elétricos, Planejamento energético e Geopolítica dos recursos energéticos.

  • Thiago Toledo

    Pesquisador da FGV Energia. Mestrando no Programa de Pesquisa Energética (PPE) da COPPE/UFRJ e Engenheiro de Produção pela Faculdade de Economia e Finanças (IBMEC), com linha de pesquisa em estudo de viabilidade de energia solar fotovoltaica no setor industrial. Pós-graduado em Finanças pelo COPPEAD/UFRJ e possui experiência profissional como estagiário em suprimentos na Vale S.A, planejamento financeiro na Coca Cola Andina e trainee na Maca Mining Australia. Especialista em projetos de cunho econômico-financeiro do setor de Óleo & Gás e Renováveis.