Drones, Houthis, Iêmen, Saudi Aramco e Rio de Janeiro: a repentina crise global do mercado de petróleo

A intensificação da situação é extremamente tensa, com uma possível escalada militar envolvendo a Arábia Saudita, o Irã, o Iêmen e os Estados Unidos. Adicionalmente, é massivamente perturbador para a indústria do petróleo um spike de preços de 19%

Energia
18/09/2019
Fernanda Delgado

A nova política de reajustes de preços de combustíveis da Petrobras, em vigor desde outubro de 2016, tem causado uma série de indagações entre especialistas no assunto e também entre os consumidores finais. Com alterações que chegaram a ser diárias, os preços da gasolina e do diesel estão alinhados conforme variações do mercado internacional e o câmbio. O fato é que, desde o início da política e apesar da subvenção aplicada pelo governo federal (consequência da greve dos caminhoneiros ocorrida em meados de 2018), os preços do produtor têm subido continuamente e, por mais que a Estatal brasileira coloque que a sua intenção seja a de aumentar a competitividade da companhia e incentivar a entrada de investidores no país, principalmente no segmento de downstream, sabe-se que existem desafios relevantes atrelados a esta política.

Dessa forma, quando drones atacaram as instalações de processamento de petróleo da Arábia Saudita em Abqaiq, as notícias de aumento de preços reverberaram nos mercados globais já desde o início da noite de domingo (15 de setembro). Os ataques do grupo terrorista Houthis tinham como alvo uma grande planta de processamento de petróleo e um grande campo de petróleo da Saudi Aramco. O ataque reduziu o suprimento global de petróleo em 5% e levantou algumas questões geopolíticas sérias, primeiro quando os rebeldes Houthis do Iêmen assumiram a responsabilidade e, especialmente, quando Washington culpou o Irã sem apresentar nenhuma prova.

Na visão de muitos analistas internacionais, a intensificação da situação é extremamente tensa, com uma possível escalada militar envolvendo a Arábia Saudita, o Irã, o Iêmen e os Estados Unidos. Adicionalmente, é massivamente perturbador para a indústria do petróleo um spike de preços de 19% - o maior salto desde 1991, quando o Iraque invadiu o Kuwait na preparação para a Guerra do Golfo. Ainda na noite de domingo o presidente Donald Trump anunciou (via Twitter) a possibilidade de uso das reservas estratégicas de petróleo dos EUA para contornar a alta dos preços. Ainda assim, vale destacar que a própria Arábia Saudita, como membro swing da OPEP, tem capacidade ociosa de aproximadamente dois milhões de barris por dia, e os poderia disponibilizar ao mercado.

É importante mencionar que existe uma instabilidade subjacente ao Golfo Pérsico e este não é o primeiro ataque terrorista à infraestrutura de petróleo na região. Este tipo de risco, tão comum à região já levou a outros conflitos como a Guerra do Iraque de 2003, a guerra civil na Síria e a atual guerra civil no Iêmen.

No curto e no médio prazos não se imagina a deflagração de uma guerra na região, mas a questão diplomática não deve ser minimizada com o aumento das crises entre EUA e Arábia Saudita com o Irã. O mundo pós-Guerra Fria se estabeleceu sob a égide de garantir a liberdade e a prosperidade sob as bandeiras da democracia e dos livres mercados, mas se esqueceu do determinismo da geografia, dos interesses individuais de países que se invejam e de seus respectivos poderes militares. Enquanto houver a possibilidade de um conflito, a volatilidade do preço do petróleo cresce.

Para o Brasil, existem pontos positivos e negativos a serem avaliados. Em se tratando de um movimento que perdure por um período maior do que um mês ou dois (entendendo esse como um movimento conjuntural apenas), o aumento no preço da commodity pode tornar mais atraentes os leilões de áreas dos próximos meses, aumentando as margens dos projetos das companhias petrolíferas. Pode-se atribuir essa explicação em parte à área de estabilidade que o Brasil representa face às demais zonas de instabilidade no resto do mundo, como o Golfo Pérsico, a Rússia, a Turquia, algumas regiões da África, à instabilidade política da Argentina, entre outras regiões.

Adicionalmente, os preços maiores no mercado internacional representariam também aumento da arrecadação dos royalties e participações especiais nos estados produtores, incrementando as receitas destes. Simultaneamente, há um aumento das receitas da balança comercial nacional, uma vez que se exporta parte do óleo cru produzido no Brasil.

Pelo lado negativo volta-se a discussão inicial desse artigo: a nova política de preços da Petrobras que indexa o preço dos derivados vendidos no país ao valor do óleo marcador no mercado internacional e ao câmbio. Ainda assim, aumentos de preços de diesel, por exemplo, sempre causam tensão política no Brasil, com ameaças de greve de caminhoneiros como a vivida no ano passado. A primeira reação da Petrobras foi esperar para reajustar os preços de combustíveis, o que já prejudica a rentabilidade da companhia e dá sinal de uma política populista de subsídios de preços. Em épocas de desinvestimentos, venda de refinarias, abertura de mercado e atração de capital externo, medidas como essa são vistas como negativas e ameaçadoras à funcionalidade das instituições, trazendo de volta a força da insegurança regulatória.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

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Autor(es)

  • Fernanda Delgado

    Professora e Coordenadora de Pesquisa na FGV Energia. Doutora em Planejamento Energético, dois livros publicados sobre Petropolítica e professora afiliada à Escola de Guerra Naval e à Escola Superior de Guerra. Experiência profissional em empresas relevantes, no Brasil e no exterior, como Petrobras, Deloitte, Vale SA, Vale Óleo e Gás, Universidade Gama Filho e Agência Marítima Dickinson. Na FGV Energia é responsável pelas linhas de pesquisa do setor de petróleo, gás e biocombustíveis, destacando-se: Descomissionamento, Downstream, Reservatórios de baixa permeabilidade, Reservas de gás natural, Veículos elétricos, Planejamento energético e Geopolítica dos recursos energéticos.

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