Hiato do produto se torna positivo no segundo trimestre de 2022 (+0,5%)

A despeito do fraco crescimento do produto efetivo, estreitamento deve-se à inédita tendência declinante do produto potencial, após 40 anos de crescimento no longo prazo.

Economia
01/11/2022
Elisa Andrade
Claudio Considera
Juliana Trece

Hiato do produto vem se estreitando e se tornou positivo. A despeito do fraco crescimento do produto efetivo, estreitamento deve-se à inédita tendência declinante do produto potencial, após 40 anos de crescimento no longo prazo.

Neste texto foram atualizadas, para o segundo trimestre de 2022, as informações referentes ao hiato do PIB. Ele vinha se reduzindo bastante desde o segundo trimestre de 2021 e registra no primeiro trimestre de 2022, valor ainda negativo (-0,6%). No segundo trimestre de 2022 o produto potencial volta a crescer (+0,12%), mas o crescimento do produto efetivo (+1,3%) é superior, acarretando o movimento do hiato para o terreno positivo (+0,5%), conforme apresentado no lado esquerdo do gráfico.

Note-se que este pequeno crescimento do produto potencial representa uma pequena recuperação, já que ele vinha com tendência declinante desde o segundo trimestre de 2019 até o primeiro trimestre de 2022 e, ainda neste segundo trimestre de 2022, ele é inferior em 2,4% ao segundo trimestre de 2019. Ou seja, nos últimos quarenta anos conseguiu-se algo inédito que é um produto potencial praticamente estagnado desde 2014 e, em seguida com tendência declinante, a partir de 2019.

Fonte: Informações primárias do IBGE (PIB, FBKF, trabalho), da FGV (NUCI) e elaboração própria. 

Isto indicaria que a redução do produto potencial, no quarto trimestre de 2021 (-0,44%), que ocorreu principalmente devido a redução do trabalho potencial, teria provavelmente sido revertida pelo aumento do nível de emprego e a redução dos desalentados da população economicamente ativa (PEA). Com o avanço da vacinação e a recuperação da atividade econômica, os efeitos positivos foram sentidos na melhora do mercado de trabalho. O setor de serviços, em particular, apresentou elevação do nível de empregos, o que ocasionou a redução da taxa de desemprego, já que esse setor é altamente intensivo em mão de obra.

No Gráfico 2, é possível ver a decomposição do crescimento do produto potencial, em taxas acumuladas em 4 trimestres evitando-se assim uma visão de curto prazo. A queda no quarto trimestre de 2020 deveu-se a contribuição negativa de capital e principalmente do trabalho, com a produtividade total dos fatores (PTF) mantendo-se positiva, embora com pequena contribuição. É notável, historicamente, a forte contribuição do fator trabalho, sempre positiva, para o crescimento do produto potencial, favorecida pelo período do bônus demográfico que se aproxima do fim, mas mantendo-se negativa durante o período mais agudo da pandemia. Desde o final de 2016, ainda sob efeitos da recessão, é possível notar a contribuição persistentemente negativa do capital, depois de ter contribuído positivamente durante os dez anos anteriores. Ao final do período de maiores contaminações da covid-19, os fatores capital e trabalho voltaram a contribuir positivamente, mas a PTF contribuiu negativamente para o produto potencial.

Fonte: informações primárias do IBGE (PIB, FBKF, trabalho), da FGV (NUCI) e elaboração própria.

Observa-se no Gráfico 3 que a PTF apresentou tendência declinante na segunda metade da década de 1980 e início da década de 90, fato que pode ser associado as diversas crises econômicas vivenciadas no Brasil neste período. Desde então, a tendência da PTF foi ascendente até 2011, tendo passado sem maiores dificuldades pela crise de 2008-2009. A partir de 2012 a trajetória se reverteu com declínio do nível da PTF que se prolongou até o final da recessão de 2014-16. A partir de 2017 a PTF volta a crescer, mas essa trajetória ascendente foi interrompida com a chegada da pandemia, em 2020. No entanto, logo no 3º trimestre de 2020 a PTF cresceu e alcançou o seu maior nível na série histórica. Contudo, a partir do 3º trimestre de 2021 ela volta a declinar e segue, até o momento, com este comportamento.

Fonte: informações primárias do IBGE e elaboração própria

O Gráfico 4, apresenta as informações da evolução da utilização do capital e do trabalho em percentual dos seus potenciais. Ao longo dos últimos 40 anos, foi frequente a sobre utilização do uso de capital e a subutilização do fator trabalho. Algumas particularidades merecem ser destacadas: na década de 80 os dois fatores de produção foram sobre utilizados; da década de 1990  em diante até a metade da década de 2010 o fator capital foi sobre utilizado, enquanto o fator trabalho foi sub utilizado; de 2011 até 2014 o trabalho fica em torno do pleno emprego enquanto o mesmo acontece com o capital de 2015 até 2018; de 2015 em diante por efeito da recessão, seguida da pandemia o fator capital volta a ficar sobre utilizado enquanto o fator trabalho volta a ficar sub utilizado.

Fonte: informações primárias do IBGE (PIB, FBKF, trabalho), da FGV (NUCI) e elaboração própria.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

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Autor(es)

  • Elisa Andrade

    Mestranda em Economia Empresarial e Finanças (FGV EPGE) e graduada em Economia (UFF). É da equipe do Monitor do PIB-FGV e do IAE-FGV.

  • Claudio Considera

    Doutor em Economia (UFF), mestre em Economia (UnB), pós-graduado em Análise Econômica (CENDEC/IPEA) e graduado em Economia (UFF). Foi chefe das Contas Nacionais do IBGE (1986-1992), Diretor do IPEA (1992-1998) e Secretário de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda (1999-2002). Atualmente coordena o Núcleo de Contas Nacionais (NCN) da FGV IBRE, sendo um dos autores do Monitor do PIB-FGV e do IAE-FGV.

  • Juliana Trece

    Doutoranda em População, Território e Estatísticas Públicas pela Escola Nacional de Ciências Estatísticas (ENCE IBGE), Mestre em Economia Empresarial pela Escola Brasileira de Economia e Finanças (FGV EPGE) e bacharel em Economia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). É economista do Núcleo de Contas Nacionais do FGV IBRE sendo a analista responsável pela elaboração mensal do Monitor da Atividade Econômica (Monitor do PIB-FGV e IAE-FGV) do qual é uma das autoras.

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