Home office no Brasil: percepções e avaliações dos trabalhadores

Para trabalhador assalariado, há muitos pontos positivos   no “home office” e grande parte gostaria de trabalhar ainda mais dias de casa. Já os empregadores parecem desejar um pouco menos de dias de casa de seus colaboradores.

Economia
07/02/2024
Aloisio Campelo
Roberto Olinto
Rodolpho Tobler

Esta nota comenta os resultados de quesitos especiais introduzidos na Sondagem do Mercado de Trabalho (SMT) do FGV IBRE buscando entender as mudanças motivadas pela tendência de aceleração do uso do trabalho remoto após a pandemia de covid-19. A análise parte de resultados de uma pesquisa experimental sobre mercado de trabalho desenvolvida dentro da PNAD-C do IBGE. Ao mapeamento geral realizado pelo IBGE, buscamos adicionar questões que nos permitissem compreender um pouco mais das mudanças. Apresentamos na próxima seção uma síntese dos resultados das da pesquisa do IBGE e a seguir os resultados da SMT, apurados no final de 2023.

I. Resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios IBGE

Nos últimos anos, e principalmente pelo recente período pandêmico, intensificou-se o debate sobre novas organizações do trabalho, particularmente o trabalho em casa, o “home office”. Com a necessidade de distanciamento social, muitas empresas se viram obrigadas a buscar soluções para que seus colaboradores continuassem produzindo, sem arriscar a sua saúde. Mesmo com o controle da disseminação do vírus, o trabalho organizado fora do ambiente profissional usual, como nas instalações de seu empregador, parece estar se estabelecendo como uma realidade muito presente no dia-dia dos brasileiros. Ter estatísticas periódicas que permitam acompanhar como se estrutura e a dinâmica dessa nova realidade se mostra fundamental.

Em 25 de outubro de 2023, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou uma estatística experimental, teletrabalho e trabalho por meio de plataformas digitais com referência em 2022, dentro da estrutura da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD-C), sobre essa nova organização, cobrindo o teletrabalho, o trabalho remoto e o trabalho no domicílio, com referência do último trimestre de 2022. Abaixo as três definições adotadas, nestas pesquisas, pelo IBGE:

  • Trabalho no domicílio abrange pessoas que, em pelo menos um dia durante o período de 30 dias de referência, desempenharam atividades laborais em seu próprio lar. No entanto, essa situação pode não ser considerada trabalho remoto caso o domicílio seja o local padrão de trabalho do empreendimento;

  • Trabalho remoto deve, sempre, ser realizado em um local diferente de trabalho para o ocupado naquele empreendimento/empresa;
  • Teletrabalho refere-se à prática de realizar atividades laborais remotamente, utilizando Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC). Isso inclui a utilização de equipamentos como computadores, tablets, telefones fixos ou móveis para a execução das tarefas profissionais.

    Neste estudo procuramos compatibilizar os dados divulgados na PNADC com quesitos especiais da Sondagem do Mercado de Trabalho (SMT) do FGV IBRE. O estudo está restrito às pessoas que declararam trabalhar no domicílio e também se classificaram como empregadas no setor privado ou público, ou seja, a parcela “assalariada” da população. Foram excluídas da análise as posições na ocupação das pessoas que se declararam conta própria, empregador e trabalhador familiar. Admitimos que nessas posições na ocupação já há, tradicionalmente, uma organização do trabalho onde não é característica ter um local de trabalho fixo em ambiente profissional, desta forma o subconjunto considerado concentra o movimento na organização do trabalho que desejamos acompanhar.

    Pelos dados da estatística experimental divulgada pelo IBGE, pouco mais de 15 milhões de pessoas ocupadas trabalhavam de casa no final de 2022, correspondentes a 15,6% dos ocupados. Como o foco da análise são os trabalhadores empregados no setor público ou privado esse número passa a ser de pouco mais de 5,7 milhões de pessoas.

    O gráfico 1 apresenta, para o Brasil e por região, a proporção de empregados nos setores privado e público trabalhando em casa. A região Sudeste apresenta a maior proporção de ocupados em casa, com 11,9% do total, dois pontos percentuais acima da média Brasil, de 9,6%. As demais regiões se situam abaixo da média, mostrando que é a região Sudeste que eleva a média. Desconsiderando esta região, a proporção baixaria a aproximadamente 7,6% do total.

Gráfico 1: Proporção de empregados no setor público ou privado trabalhando de casa

Fonte: PNADC – Estatística experimental

Dos trabalhadores empregados no setor público ou privado e que declararam trabalhar em casa, 34,8% trabalhavam totalmente de casa, enquanto 65,2% trabalhavam parcialmente de casa. Esse resultado também é muito concentrado na região Sudeste, a única que, novamente, apresenta um percentual acima da média nacional, com 39,5% das pessoas trabalhando totalmente de casa.

Resultados da Sondagem do Mercado de Trabalho do FGV IBRE

A Sondagem do Mercado de Trabalho (SMT) do FGV IBRE busca aprofundar a compreensão sobre essa nova organização do trabalho por meio de uma série de questões especiais incluídas no questionário básico da pesquisa.  Em outubro foram incluídas questões sobre: quantos dias os ocupados estão trabalhando de casa, quantos dias gostariam de trabalhar de casa, qual o principal ponto positivo do trabalho em casa e como isso impactou o bem-estar das pessoas. Para agregar os resultados foram utilizados os dados da: PNADC e feita a mesma análise sobre empregadores trabalhando de casa. Os dados foram coletados em setembro de 2023.

  • Número de dias que as pessoas trabalhando de casa, e número de dias desejados por empregados e seus chefes

Segundo informações obtidas na pesquisa realizada em setembro de 2022, antes da pandemia a média de dias trabalhados de casa reportada pelos respondentes era de um,quatro dia por semana. Em setembro de 2022, este número havia subido para três, cinco dias. Em setembro de 2023, foram de três em três dias por semana, mostrando uma certa convergência para um esquema de três dias na semana em casa e 2 no local de trabalho. O resultado se aproxima do que eles imaginam que os chefes gostariam: ano passado, o número desejado pela chefia era de três em três dias em média; em 2023 o número caiu um pouco, para três, dois. Entretanto, quando se pergunta qual seria o regime ideal de e trabalho para os ocupados que trabalham algum dia de casa, obtém-se um número algo em torno de quatro dias.

O Gráfico 3 apresenta, para 2022 e 2023, as respostas obtidas sobre o número de dias efetivamente trabalhados e as duas alternativas colocadas: quanto o empregado gostaria e quanto ele acredita que o chefe gostaria.

Gráfico 3: Médias de dias trabalhados de casa

Fonte: Sondagem do Mercado de Trabalho

  • Satisfação das pessoas que trabalham em casa

A pesquisa identificou um grau elevado de satisfação ou apreciação das pessoas com o trabalho em casa. Entre as pessoas que trabalham ao menos um dia de casa, a proporção dos que gostariam de trabalhar de forma totalmente presencial é inferior aos 30% do total. Já entre as pessoas que trabalham 100% do tempo no endereço físico da empresa, , 49,7% afirmaram que gostariam de trabalhar de casa, seja total ou parcialmente.

  • Avaliação sobre produtividade

Também foi perguntado para as pessoas que estão trabalhando em casa, como elas avaliam sua produtividade no trabalho. Pelo segundo ano consecutivo, as pessoas reportam a percepção de um aumento muito da produtividade no trabalho em casa.

O Gráfico 4 apresenta a percepção dos respondentes em relação a sua produtividade a partir do momento que passaram a trabalhar em casa para 2022 e 2023.

A percepção em relação à produtividade neste tipo de pesquisa deve levar em conta que há indícios que as pessoas não estejam reportando a produtividade do trabalho em si, como vem sendo reportado na literatura internacional sobre o assunto, como, por exemplo um artigo  da revista The Economist[1], que trata da ilusão do aumento da produtividade trabalhando de casa.  O argumento central é que muitas vezes as pessoas podem estar considerando como produtividade a possibilidade de realizar mais outras atividades além do trabalho. Por isso, é importante ter cautela com essa avaliação de produtividade e se pesquisar como as pessoas que estão trabalhando em casa estão usando o seu tempo. Pesquisas semelhantes realizados com empregadores retornam resultados bem diferentes.

Gráfico 4: Percepção sobre a produtividade com o trabalho de casa, em %

Fonte: Sondagem do Mercado de Trabalho

Mais dois temas relacionados ao trabalho em casa foram incluídos na SMT de outubro de 2023. O primeiro foi sobre o principal ponto positivo de trabalhar de casa na visão dos trabalhadores. Neste, um fator de destaque foram os horários mais flexíveis. Além desse desejo pela flexibilidade, os trabalhadores também apontaram aumento do bem-estar ou qualidade de vida e não perder tempo com deslocamento. É válido destacar que a opção não enxergar pontos positivos não registrou resposta significante.

O Gráfico 5 apresenta as proporções das respostas às diferentes opções apresentadas.

Gráfico 5: Principal ponto positivo ao trabalhar de casa, em %

Fonte: Sondagem do Mercado de Trabalho

O segundo tema foi sobre como as pessoas redistribuíram seu tempo com a economia de tempo em deslocamentos ao trabalho. O questionário oferecia diversas opções que precisavam somar 100% para concluir o total de tempo ganho. A principal atividade que foi aumentada com o ganho de tempo foi afazeres domésticos ou de cuidado.

Em resumo, o estudo mostra que que este novo modelo de trabalho veio para ficar. Aqui e no exterior houve uma explosão do trabalho em casa logo após a pandemia, primeiramente no regime de trabalho 100% à distância e depois no regime híbrido, hoje mais popular. No momento é debate é acalorado sobre as tendências para os próximos anos. Nicholas Bloom, de Stanford, sustenta que depois deste período de arrefecimento, a prática do home office voltará a crescer no mundo todo.

No Brasil, a parcela da população que consegue trabalhar dessa forma é pequena, mas o regime também parece ter vindo para ficar. Do ponto de vista do trabalhador assalariado, há muito mais pontos positivos e grande parte gostaria de trabalhar ainda mais dias de casa. Já os empregadores parecem desejar um pouco menos de dias de casa de seus colaboradores. O número de dias em casa parece ter se estabilizado nos últimos dois anos, podendo sinalizar uma acomodação sem que saibamos qual será a direção nos próximos anos.  De qualquer forma, o aprendizado adquirido com a pandemia lançou o trabalho à distância a um novo patamar. É possível que novas tecnologias ou fatos voltem a mexer com este relevante aspecto do mercado de trabalho.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do IBRE em 30 de janeiro de 2024.

    *As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

    Do mesmo autor

    Autor(es)

    • Aloisio Campelo

      Bacharel em Ciências Econômicas pela PUC-RJ, com Diploma em Economics for Development da Queen Mary College. MBA em Finanças Empresariais e Mestrado em Economia Empresarial pela FGV. Atualmente é economista do Instituto Brasileiro de Economia (FGV IBRE), onde coordena o departamento produtor de sondagens de tendência.

    • Roberto Olinto

      Doutorado em Engenharia de Produção COPPE/UFRJ, Foi Presidente (2017-2019), Diretor de Pesquisas (2014-2017) e Coordenador de Contas Nacionais (1995-2014) do IBGE, Membro do Advisory Expert Group em Contas Nacionais das Nações Unidas (2002-2019), Consultor do Departamento de Estatísticas do Fundo Monetário Internacional para contas nacionais, atualmente pesquisador associado do FGV IBRE. 

    • Rodolpho Tobler

      Coordenador das Sondagens do Comércio e de Investimentos da Superintendência Adjunta para Ciclos Econômicos (FGV IBRE). Mestrando em Economia e Finanças pela Escola Brasileira de Economia e Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV EPGE) e bacharel em Ciências Econômicas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FCE/UERJ).

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