A Importância do Carnaval para a Economia do Rio de Janeiro

Segundo dados da Riotur, o Carnaval passado impactou R$ 3,8 bilhões na economia do Rio de Janeiro, com mais de um milhão e meio de turistas na cidade e a ocupação da rede hoteleira em mais de 90% durante o período carnavalesco

Economia
13/02/2020
Marcel Balassiano

O carnaval brasileiro pode ser analisado sob diversas óticas – da cultura, da festa, do entretenimento, do turismo –, e também pode (e deve) ser analisado pelo impacto econômico que provoca, ao promover a indústria criativa e o turismo nas cidades em que acontecem. Neste artigo, vou focar na importância do carnaval das escolas de samba para a economia do Rio de Janeiro.

Durante o ano inteiro, milhares de pessoas de diferentes profissões – ferreiros, costureiras, artistas plásticos, profissionais de limpeza, seguranças, carnavalescos e cantores, entre outras – trabalham nos barracões e quadras das escolas de samba. Esse importante setor movimenta muito dinheiro e gera milhares de empregos. Segundo dados da Riotur, o Carnaval passado impactou R$ 3,8 bilhões na economia do Rio de Janeiro, com mais de um milhão e meio de turistas na cidade e a ocupação da rede hoteleira em mais de 90% durante o período carnavalesco.

Há impactos diretos (hospedagem, alimentação e bebidas, transporte local, passeios e atrativos e compras) e indiretos (indústria fornecedora de insumos, treinamento, imobiliário, hospitais, entretenimento e logística) na economia. Em 2018, foram criados mais de 70 mil postos de trabalho, gerando uma arrecadação de impostos de R$ 179 milhões, sendo R$ 77 milhões de ISS para o Rio de Janeiro, de acordo com dados de uma pesquisa da FGV contidos na edição de 2019 da revista “Ensaio Geral – Informativo Oficial da LIESA”. Entre os turistas, 88% foram brasileiros, que tiveram uma permanência média de 6,6 dias e gastaram R$ 280,32 por dia (média). Já os 12% de estrangeiros, ficaram mais dias e gastaram mais também: 7,7 dias, com gasto médio de R$ 334,01.     

As dezenas de escolas de samba realizam ainda ensaios comerciais semanalmente, durante todo o ano, e ensaios gratuitos nas ruas perto das suas comunidades, no período da festa. Os eventos atingem milhares de pessoas, mobilizando a economia formal ao incrementar o movimento em bares, restaurantes, lojas das quadras e no setor de transporte, e informal (ambulantes vendendo cerveja, refrigerante etc). O resultado positivo é percebido tanto na cidade do Rio de Janeiro quanto em outras cidades fluminenses que também possuem escolas de samba, como Nilópolis, Caxias, Niterói e São Gonçalo.

Os ensaios técnicos no Sambódromo, que eram realizados no período anterior ao carnaval, atraíam um público de dezenas de milhares de pessoas para assistir a uma espécie de “prévia” do desfile. Por mais de 15 anos em que o evento foi realizado, contribuiu (e muito) para movimentar a economia (formal e informal) carioca.  Os ensaios foram suspensos em 2018, retomados no ano passado, mas em 2020 deixaram de ocorrer novamente.

Outras medidas, como programas de sócio-torcedor ou crowdfunding (financiamento coletivo), têm um potencial enorme de serem grandes fontes de receita futura para as escolas de samba. Salgueiro, Portela, Mocidade, entre outras agremiações, possuem programas para seus sócios, com diferentes benefícios. Este ano, a Mangueira lançou um financiamento coletivo, porém o valor arrecadado ainda é muito baixo comparado às despesas que uma escola tem.

Ambos os projetos (sócio-torcedor e financiamento coletivo) têm o conceito de aproximar mais o a escola do torcedor, que contribui financeiramente em troca de benefícios e/ou experiências exclusivas. Ainda há um caminho muito longo para essas ideias deslancharem no meio do carnaval. Mas projetos desse tipo, se bem feitos, têm potenciais enormes e beneficiam ambos os lados.

Por sua vez, de uns anos para cá, e cada vez mais, o Sambódromo tem recebido grandes camarotes – com festas e muitas pessoas famosas. São eventos voltados para um público mais jovem, com ingressos individuais que custam por dia em torno de R$ 1 mil/ R$ R$ 2 mil, ou até mais. Claramente, a maior parte dessas pessoas não faz parte de um público originário do carnaval. Eles frequentam os camarotes não pelas escolas de samba, mas sim pela festa em si.

Acredito que as festas nos camarotes são um ponto bastante positivo, pois traz um público “novo” e “diferente” para o Sambódromo, que pode até depois se interessar mais pelo carnaval. Além disso, ajuda a movimentar, mais uma vez, a economia da cidade durante a festividade. Há camarotes que conseguem fazer até seis eventos no Sambódromo, em dias com desfile (Série A, Grupo Especial e Sábado das Campeãs) ou sem desfile (na quarta-feira de cinzas, dia da apuração, onde há algumas feijoadas). Muitos empregos são gerados por essa indústria do entretenimento.

Dessa forma, a importância das escolas de samba é enorme, pois elas representam, no mundo, o Rio de Janeiro e o Brasil! É fundamental ressaltar também que muitas escolas de samba possuem diversos projetos sociais: como Beija-Flor, Mangueira, Portela e Salgueiro. Ou seja, as atividades das escolas de samba têm consequências positivas tanto para a sociedade quanto para a economia fluminense – em que são gerados milhares de empregos e bilhões de reais aos cofres públicos. Há impacto social, nos programas sociais das escolas, e retorno cultural, já que carnaval também é cultura!! Resultados esses que não deveriam ser ignorados por ninguém.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

Autor(es)

  • Marcel Balassiano

    Economista da área de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia (FGV IBRE). Mestre em Economia Empresarial e Finanças pela EPGE Escola Brasileira de Economia e Finanças (FGV EPGE), mestre em Administração pela Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (FGV EBAPE) e bacharel em Economia pela FGV EPGE.

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