Mães solo no mercado de trabalho crescem 1,7 milhão em dez anos

O crescimento de domicílios tendo como pessoa de referência uma mãe solo faz parte das intensas transformações observadas nos arranjos familiares na última década.

Economia
18/05/2023
Janaína Feijó

Nessa análise, considero domicílios chefiados por mães solo como aqueles em que a pessoa de referência é uma mulher com filho(s), mas sem a presença de um cônjuge. O termo “mãe solo” é mais adequado e abrangente do que “mães solteiras” para caracterizar a solidão e os desafios que as mães, sem cônjuge e com praticamente nenhuma rede de apoio, enfrentam no dia a dia para cuidar de seus filhos.

O solo não se refere apenas a ausência de um cônjuge, mas sim ao fato de todas as responsabilidades recaírem unicamente sobre a mãe. A maternidade impõe uma série de desafios para as mulheres e, no contexto das mães solo, esses desafios se tornam maiores.

Entre os anos de 2012 e 2022 o número de domicílios com mães solo cresceu 17,8%, passando de 9,6 milhões para 11,3 milhões. Ou seja, ocorreu um incremento de 1,7 milhão de mães solo em dez anos, como pode ser visualizado no Gráfico 1.

A dinâmica recente de mães solo tem sido explicada predominantemente (90%) pela ascensão do quantitativo de mães solo negras (pretas e pretas), que passou de 5,4 milhões para 6,9 milhões no período. O número de mães solo autodeclaradas brancas e amarelas permaneceu relativamente estável.

Gráfico 1 – Evolução do número de pessoas de referência que são mães solo. Brasil.

Fonte: Elaboração da autora com base nos microdados da PNADC.

Além disso, a maior parte das mães solo (72,4%) vivem em domicílios monoparentais, sendo compostos apenas por elas e seu(s) filho(s). Ou seja, não moram com parentes ou agregados que teriam o potencial de ajudar nas responsabilidades familiares e na promoção do equilíbrio entre vida pessoal, família e trabalho.

Em termos relativos, no 4º trim de 2022, dos 75,3 milhões de domicílios existentes no Brasil, 14,9% (11,3 milhões) tinha como pessoa de referência mães solo. No 4º trim de 2012 essa proporção foi de 15,3%. Essa proporção difere entre os estados brasileiros, conforme Mapa 1. Os estados do Nordeste e Norte, por exemplo, apresentam as maiores proporções de domicílios chefiados por mães solo. Enquanto as menores foram reportadas na região Sul. 

No 4º trimestre de 2022, Sergipe (19,9%), Amapá (18,6%) e Rio Grande do Norte (18%) eram os estados com as maiores proporções de domicílios com os responsáveis sendo mães solo. Já Santa Catarina (10,6%), Mato Grosso (11,8%) e Rio Grande do Sul (11,8%) registraram as menores proporções. Além disso, em Sergipe (2,7 p.p), Rio Grande do Norte (2 p.p) e Pará (1,6 p.p) cresceu a proporção de domicílios com mães solo no período analisado.

Mapa 1 – Proporção de domicílios em que a pessoa de referência era mãe solo. UF. Brasil. 2022.T4

Fonte: Elaboração da autora com base nos microdados da PNADC.

Também se observa que uma parcela expressiva dessas mães não possui ensino superior.  Os dados do 4º trimestre de 2022 mostram que mais da metade (54,3%) das mães solo tem, no máximo, ensino fundamental completo e menos de 14% tem ensino superior.

A composição educacional entre as mães solo negras (pretas e pardas) é ainda mais grave, com uma maior concentração nos extratos de nível educacional mais baixo (58,7%) e uma minoria tendo ensino superior (8,9%). As mães solo brancas/amarelas têm uma composição menos desigual, onde a proporção de mães com ensino superior (21,4%) é mais do que o dobro do observado para mães negras.

Gráfico 2 – Nível Educacional das Mães Solo - Pessoa de Referência. 2022.T4 Brasil.

Fonte: Elaboração da autora com base nos microdados da PNADC.

Para entender a alta proporção de mães solo com baixo nível educacional é necessário analisar em que fase da vida elas se tornaram mães pela primeira vez. Como a maternidade requer uma dedicação quase que exclusiva das mães nos primeiros anos da infância da criança, se torna muito difícil conciliar com outras atividades e responsabilidades.

Quando a maternidade acontece durante a fase escolar (antes dos 24 anos) pode desencadear uma série de desdobramentos na vida profissional e pessoal da mulher, que, a longo prazo, pode ser irreversível. A perda de capital humano decorrente da interrupção dos estudos é uma delas.

A depreciação do conhecimento e a falta de capacitação fazem com que seja cada vez mais difícil dessa mãe ser absorvida no mercado de trabalho e compromete seus salários potenciais futuros. Mesmo quando a criança atinge a idade de frequentar a escola e essa mãe pode ir em busca de emprego, ainda assim enfrenta dificuldades.

O Gráfico 3 mostra uma correlação/associação positiva entre a idade em que as mães solo têm o primeiro filho e seu grau de escolaridade. Quanto mais jovem a mãe solo tem seu filho menor são as chances de ela ter ensino superior.

Por exemplo, entre as que tiveram o primeiro filho com 15 anos ou menos, apenas 3% têm ensino superior completo. Já entre as que tiveram o primeiro filho aos 30 anos, 22% têm ensino superior completo.

Além disso, observa-se que entre as mães solo com 15 a 60 anos, 57% delas tiveram o primeiro filho antes dos 26 anos de idade. Ou seja, em uma fase crucial para a consolidação dos estudos.

Gráfico 3 – Relação entre a idade em que as mães solo tiveram o primeiro filho e a proporção delas que tem ensino superior completo. Mães solo de 15 a 60 anos que são pessoas de referência. 2022.T4.

 

Fonte: Elaboração da autora com base nos microdados da PNADC. Nota: * considerou-se o primeiro filho como sendo o filho mais velho que residia no domicílio em que a mãe solo era a pessoa de referência.

Os Gráficos 4 e 5, abaixo, mostram a situação das mães solo no mercado de trabalho no 4º tri de 2022. As estatísticas foram geradas para mães que tinham entre 15 e 60 anos de idade e são as pessoas de referência dos seus domicílios. Ou seja, os demais membros da casa a consideram a principal responsável e provedora das necessidades do lar.

As mães solo enfrentam desafios adicionais para se inserirem no mercado de trabalho, pois, na maioria das vezes, não podem contar com outras pessoas para compartilhar as despesas financeiras do lar ou com uma rede de apoio que a possibilite conciliar maternidade, estudo e trabalho.

Atualmente, de todas as mães solo entre 15 e 60 anos, 29,4% estão fora da força, 7,2% estão desempregadas e 63,3% estão ocupadas. Quando analisamos mães solo com filhos pequenos (até cinco anos), as chances de elas estarem fora da força aumenta para 32,4% e de estar desempregada sobe para 10%.

Entre as mães negras esses indicadores se tornam piores, pois de todas as mães solo negras com filhos pequenos, 34,6% estão fora da força de trabalho e 11,6% estão desempregadas. Essas proporções são bem maiores do que as verificadas para o grupo de mães solo brancas/ amarelas.

O Gráfico 4 mostra que 1) mães solo com filhos pequenos têm mais dificuldade para se inserir no mercado do que as demais mães solo e 2) Para mães solo de crianças pequenas e autodeclaradas negras essa situação é ainda pior.

Gráfico 4 – Situação das Mães Solo de 15 a 60 anos no Mercado de Trabalho – Pessoa de Referência - 2022.T4. Brasil.

Fonte: Elaboração da autora com base nos microdados da PNADC

A mãe solo, ao buscar conciliar responsabilidades familiares e trabalho, tende a procurar por ocupações que ofereçam jornadas mais flexíveis. Para algumas mães, a única saída para ter flexibilidade, trabalho e rendimento é ir para a informalidade. Contudo os postos informais são caracterizados por oferecerem remunerações mais baixas e desprovidos de proteção social. Em 2022.T4 cerca de 45% das mães solo empregadas estavam na informalidade.

Comparando o rendimento o rendimento médio com outros arranjos familiares, nota-se que rendimento das mães solo tem sido menor do que o dos homens casados com filhos e mulheres casadas com filhos, tanto em 2019.T4 quanto em 2022.4. Em 2022.T4, por exemplo, o rendimento das mães solo foi 39% inferior ao dos homens casados com filhos e 20% menor do que o das mulheres casadas com filhos.

Gráfico 5 – Rendimentos Habitual Médio. Indivíduos de 15 a 60 anos. 2019.T4 e 2022.T4. Pessoas de Referência. Brasil.

Fonte: Elaboração da autora com base nos microdados da PNADC

Analisando o rendimento das mães solo por recorte de raça, observa-se uma grande diferença de nível entre o rendimento das mães brancas/amarelas e os das mães negras. Enquanto o rendimento médio das mães solo brancas/ amarelas foi de R$ 2.772 em 2022.T4, o das mães negras foi de R$ 1.685.

O Gráfico 6 também revela a existência de uma associação positiva entre a idade em que a mãe solo teve seu primeiro filho e o seu rendimento do trabalho. Mães solo que tiveram o primeiro filho mais tardiamente, como por exemplo aos 27 anos, tendem a ter rendimento médio em torno de R$ 1.700, mais do que o dobro do rendimento das mães que tiveram filhos com 15 anos ou menos (R$ 800).

Gráfico 6 – Relação entre a idade em que as mães solo tiveram o primeiro filho e rendimento do trabalho. 15 a 60 anos. 2022.T4. Brasil

Fonte: Elaboração da autora com base nos microdados da PNADC.
Nota:
1) considerou-se o primeiro filho como sendo o filho mais velho que residia
no domicílio em que a mãe solo era a pessoa de referência.
2) Para as mães solo desempregadas ou fora da força de trabalho o rendimento
o trabalho considerado foi zero.
3) Foi utilizado o rendimento habitual de todos os trabalhos.

Diante desse contexto, é necessário avançar no aperfeiçoamento e elaboração de políticas públicas para que as mães, principalmente as solo, consigam permanecer no mercado de trabalho. A provisão de creches ajustada pela demanda, programas de requalificação e estímulo ao empreendedorismo pode ajudar milhares de mulheres a se reinserir no mercado de trabalho. Para aquelas que já estão empregadas, as instituições privadas podem desenvolver estratégias e iniciativas para viabilizar a conciliação da maternidade e do trabalho. 

Este artigo foi publicado no Blog do IBRE em 12 de maio de 2023

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

Autor(es)

  • Janaína Feijó

    Pesquisadora da área de Economia Aplicada do FGV IBRE. Atualmente desenvolve pesquisas na área de mercado de trabalho, educação e desigualdades sociais. Doutora em Economia pela Universidade Federal do Ceará (CAEN UFC), mestre em Economia pela Universidade Federal do Ceará (CAEN-UFC) e bacharel em Ciências Econômicas (UFC).

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