Mulheres jovens no mercado de trabalho: desafios à vista
No dia 8 de março foi comemorado o dia das mulheres. De fato, não podemos deixar de celebrar as inúmeras conquistas que as mulheres tiveram ao longo da História: acesso às faculdades, o direito ao voto, a possibilidade de trabalhar sem a necessidade de autorização do marido. Mas, também devemos reconhecer que ainda não vivemos em uma sociedade igualitária em termos de gênero. A ONU estima que serão necessários 300 anos para o mundo atingir a igualde de gênero. Essa desigualdade também se reflete no mundo do trabalho.
As mulheres correspondem a 51,1% da população brasileira, segundo dados da PNAD Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) de 2021 e são, em média, mais instruídas do que os homens. Para se ter uma ideia, segundo dados da PNAD Contínua de 2019, entre a população com 25 anos ou mais, 40,4% dos homens não tinham instrução ou possuíam somente o fundamental incompleto enquanto as mulheres correspondiam a 37,1%. Com relação à proporção de pessoas com nível superior completo, os homens correspondiam a 15,1% e as mulheres 19,4%. Apesar das mulheres serem maioria na população brasileira e, em média, mais escolarizadas do que os homens, isso não significa que tenham mais oportunidades de trabalho ou salários maiores. Muito pelo contrário. Mulheres vivenciam, diariamente, inúmeros desafios quando se trata de inserção no mercado de trabalho e ascensão profissional.
Segundo a FGV, entre os anos de 2014 e 2019, a taxa da participação feminina no mercado de trabalho atingiu 54,34%. Em 2020, devido a pandemia, o número recuou para 49,45%. Em 2021, houve uma melhora e subiu para 51,56%. Ainda assim, a participação feminina no mercado de trabalho é, ao menos, 20% inferior à participação masculina. Além de se mostrarem minoria no mercado de trabalho, com relação à questão salarial, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que uma brasileira recebe, em média, 78% do que um homem recebe.
Não é somente a diferença salarial que afeta a experiência das mulheres no mercado de trabalho e revela a desigualdade enfrentada. Outro fator importante refere-se às dificuldades enfrentadas por elas para ascender aos cargos executivos. Uma pesquisa realizada pela Grant Thornton mostrou que as mulheres ocupam 38% dos cargos de liderança no País. A maioria delas encontra-se na diretoria de Recursos Humanos ou em outras áreas de apoio. A minoria ocupa cargos executivos, como de CEO (Chief Executive Officer). O que acontece é que, de forma geral, ainda há a concepção de que os cargos executivos são lugares reservados aos homens, além da existência de pressupostos de que as mulheres não estarão disponíveis para as demandas de trabalho como viagens, reuniões, entre outras atividades, devido aos cuidados com os filhos. Mulheres aptas a ocuparem esses cargos estão sendo preteridas todos os dias e, nem sempre, se dão conta disso. Entretanto, quando mulheres ocupam cargos executivos abre-se um espaço para que outras mulheres na mesma empresa também possam ocupar esses lugares. A noção do possível passa a existir e ter um role model feminino é importante para que inspire outras mulheres, em particular, as mais jovens.
Com relação às mulheres mais jovens, em estudo que realizei em co-autoria com as pesquisadoras Luisa Beltramini e Jussara Pereira intitulado Mulheres jovens, “teto de vidro” e estratégias para o enfrentamento das paredes de cristal, publicado em 2022 na Revista de Administração de Empresas (RAE) notamos que elas podem enfrentar dificuldades logo no início da carreira. O etarismo, portanto, não afeta somente as mulheres com mais idade. As jovens enfrentam discriminação nos processos seletivos devido aos estereótipos relacionados à inexperiência e imaturidade, o que pode impactar fortemente nas oportunidades de inserção no mercado de trabalho e, consequentemente, maiores dificuldades durante a ascensão profissional. Muitas jovens acabam adotando mecanismos para se defenderem: falas mais diretas, roupas mais masculinas, salto alto, óculos e penteados que as envelheçam.
Por outro lado, mulheres com mais idade são vistas, frequentemente, como menos produtivas e consideradas velhas para o mercado de trabalho ainda com 40 anos de idade. Parece não haver, portanto, a idade certa para ser uma profissional mulher. Ora muito jovem, ora muito velha. Tem algo muito errado, não se pode negar.
É premente, portanto, que as organizações se atentem e combatam fortemente a desigualdade de gênero e não deixem de olhar para as mulheres de diferentes idades. Sugere-se que as empresas construam uma cultura organizacional que valorize a diversidade, a partir de um processo de conscientização dos colaboradores, além da adoção de práticas de gestão de pessoas que contribuam para que mulheres tenham melhores condições de trabalho. Metas de diversidade, incentivo às redes de apoio e investimento em liderança feminina são apenas algumas iniciativas possíveis. Pode-se ir mais longe: é possível, necessário e urgente.