Razões, Morais e Emoções Climáticas

Abordagens argumentativas que combinam considerações racionais, morais e emocionais colaboram para aumentar a saliência e prioridade para o progresso de políticas e práticas para lidar com a mudança do clima.

Energia
26/06/2023
Guarany Ipê do Sol Osório

O nível de consenso científico sobre as causas e efeitos da mudança do clima é alto. Existe mais de 99% de consenso na literatura cientifica, revisada por pares, reconhecendo que a mudança do clima é causada principalmente por atividades humanas. O Sexto Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas fornece a mais abrangente e atual avaliação da mudança do clima existente no mundo, destacando a urgência e necessidade de priorização de esforços nessa agenda.

Questão crítica

Apesar de todo o acúmulo de evidências e avanços científicos indicando claramente a trajetória climática mais segura a seguir, ainda existe uma lacuna entre essa indicação e os níveis de compromissos assumidos para atingir tal objetivo.

Há também uma enorme lacuna na divulgação científica e temos experienciado contextos de disputas retóricas que confundem o público em geral sobre temas que possuem base científica. Essas disputas ficam evidentes no caso da mudança do clima.

A questão crítica é: como contribuir para que as informações e recomendações científicas cheguem ao público em geral e convençam os tomadores de decisão a agirem mais adequadamente?

Desafios de comunicação climática e divulgação científica

Frequentemente, a compreensão sobre a natureza e urgência do problema climático e suas possíveis soluções não são bem entendidas por diferentes audiências, incluindo importantes tomadores de decisões, uma vez que muitos destes não são especialistas, técnicos ou cientistas da área, aumentando a dificuldade no campo da argumentação.

A mudança do clima é um problema que possui alto grau de complexidade, incerteza e divergências entre diferentes grupos de atores. O problema apresenta um grande desafio de comunicação e demanda diferentes abordagens argumentativas para promover o entendimento e convencimento de todas as partes sobre sua severidade e, consequentemente, para obter maior apoio da sociedade na adoção das políticas e práticas necessárias para enfrentá-lo.

No Brasil, apesar de evoluções, os discursos pró-ambientais tem tido dificuldades para influenciar de forma decisiva mudanças estruturais e transversais nas políticas de desenvolvimento do país, ilustrando que os argumentos de proteção ambiental não são persuasivos por si só para alguns públicos. Ou seja, continua sendo um desafio superar argumentações e ideias baseadas em concepções de desenvolvimento que enquadram as ações climáticas como obstáculos ao progresso.

As realidades nacional e locais podem ser extremamente complexas, pois diversos grupos políticos e sociais são movidos por diferentes racionalidades, ligações emocionais, bússolas morais e muitas vezes têm identidades sobrepostas. Pegando o caso da Amazônia brasileira, outras complexidades são adicionadas, por exemplo, deve-se olhar para as populações indígenas e tradicionais, agricultores, proprietários de terras, garimpeiros, madeireiros, pecuaristas e trabalhadores da construção civil, mas também incluir migrantes e imigrantes, grupos religiosos, meios de comunicação, políticos e empresários locais. Dentro desses grupos, podemos encontrar diversas ideias e interesses em relação ao desenvolvimento da região, conservação e uso dos recursos naturais.

Abordagens argumentativas 

As escolhas de enquadramento e estratégia de argumentação são de vital importância nos processos de definição de problemas e soluções, especialmente quando informações científicas complexas estão entrelaçadas com interesses públicos e econômicos. As lacunas sobre a conscientização a respeito desses tipos de problemas não se restringem somente a maior produção de conhecimento, mas também se aplicam ao “como” e de que formas esse conhecimento circula na sociedade. Embora fundamentais, argumentos pautados em evidências e racionais científicos por si só não têm sido suficientes, por exemplo, para engajar o público em geral e convencer os tomadores de decisão a adotarem certas ações e políticas na área da mudança do clima.

Como ensinava Aristóteles há cerca de 2.400 anos, é fundamental ir além e apresentar considerações morais (ethos) e emocionais (pathos), combinados com elementos calcados na razão (logos), que mobilizem diferentes audiências em torno de uma causa comum. Soma-se aqui, que divulgação científica, campanhas de conscientização e de catalisação de ações ganham maior peso para promover mudanças quando apoiadas por abordagens propostas regionalmente, incluindo “tradutores” nacionais, setoriais e locais de confiança para suas audiências, e formando um cenário em que há maior peso para legitimar as transformações necessárias.

Casos didáticos

Nessa linha, um exemplo didático vem do campo religioso. Cristãos evangélicos americanos fizeram uso do termo "Criação" ao invés de "meio ambiente” para se referir a conservação ambiental e sustentabilidade, trazendo um enfoque religioso para alcançar e disseminar a ideia da importância de esforços e mobilização para cuidar da criação de Deus, construindo pontes com públicos mais conservadores.

Destacam-se também exemplos, dentre muitos, que estão na Encíclica do papa Francisco que traz abordagens que combinam aspectos baseados em ciência, moral e emoções. Primeiro destaque: o papa utilizou raciocínio científico para afirmar que mudança do clima é um problema físico e real a partir de "um consenso científico muito consistente". Segundo: o papa, a partir de sua reputação e caráter moral, fez um chamado por ações baseadas em “decisões éticas”, com apelos para cuidar da "nossa casa comum", incluindo seu clima, de acordo com a "interpretação correta da Bíblia". Terceiro: ele usou linguagem apocalíptica, mas também reforçou o sentimento de amor e união da humanidade como uma família para cuidar de uma "casa comum criada pelo amor de Deus". Destacou o sentimento de "coragem" para políticos agirem em prol do clima e com a “dignidade que Deus lhe deu como pessoa”, deixando um “testemunho de generosa responsabilidade”.

Embora o papa não tenha trazido novas evidências científicas, ele reuniu uma série de argumentos que fizeram sentido para públicos amplos, contribuindo para disseminação da importância de ações, ciência e políticas climáticas. Buscou pontes entre religiões e diferentes áreas. Colaborou, ainda, para uma série de declarações políticas e de diferentes religiões. Houve posicionamentos e mobilizações inter-religiosas apelando por maiores compromissos em seus países e por um acordo climático global durante o ano em que foi estabelecido o Acordo de Paris

Existem outros exemplos de diferentes campos de atuação como o militar, econômico, povos originários, jovens, entre outros. O ponto aqui é reunir essas abordagens argumentativas que visam motivar ações individuais e coletivas envolvendo públicos mais amplos. São formas de fortalecer recomendações que tenham robustez científica visando o desenvolvimento econômico e social de maneira integrada com os objetivos climáticos. Trazer atores com diferentes formações e valores (científicos, culturais, religiosos e políticos) expande o impacto da comunicação sobre mudança do clima para incluir uma gama mais ampla de públicos e tomadores de decisão.

Fortalecer divulgação científica e comunicação climática

Abordagens argumentativas que combinam considerações racionais, morais e emocionais colaboram para aumentar a saliência e prioridade para o progresso de políticas e práticas para lidar com a mudança do clima. Essa é uma tarefa desafiadora, mas urgente, dado que o Brasil possui grande potencial para soluções na área climática, abriga seis biomas terrestres e três grandes ecossistemas marinhos, sendo o País chave nas agendas de clima e biodiversidade.

A divulgação científica pode ser um importante componente, no entanto, os investimentos em iniciativas e campanhas com esses formatos são baixos no país dada a relevância da questão climática. Também são incipientes as iniciativas de entretenimento de impacto, que criam novas formas de mobilização para ação, organizadas entre diferentes atores da sociedade, por exemplo entre academia e profissionais de criação e audiovisual.

Com maior empenho e investimentos, as abordagens e iniciativas citadas podem contribuir para levar esse tema para públicos mais amplos e contribuir para convencer tomadores de decisão, que ainda não compreendem ou não atentam para a urgência e relevância do tema, a agirem em consonância maior com as evidências e acúmulo de conhecimento na área.

O artigo foi elaborado com base na pesquisa de doutorado do autor – Quadro analítico para abordagem retórica em políticas públicas: caso das políticas climáticas – e publicado originalmente no Valor Econômico.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

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Autor(es)

  • Guarany Ipê do Sol Osório

    Doutor em Administração Pública e Governo pela FGV EAESP. Mestre em Direito, na área de Ciências Jurídico-Ambientais, pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Coordenador do Programa Política e Economia Ambiental do Centro de Estudos em Sustentabilidade (FGVces) da FGV EAESP e professor da Escola no Mestrado Profissional em Gestão para Competitividade – Linha Sustentabilidade.

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