O tamanho da desaceleração global

Discurso da inflação transitória, que cairia sozinha, caiu por terra, e, com alta de juros e problemas na China, agora há pessimismo global. FMI projeta que, no 4º tri de 2022, PIB mundial esteja só 2,5% acima do fim de 2021.

Economia
27/06/2022
Armando Castelar Pinheiro

Certa vez li em um artigo que os economistas, para serem respeitados por seus pares, precisam ser pessimistas. O autor do comentário é um economista otimista, que por algum tempo fez sucesso contrariando as previsões de que a alta na inflação derrubaria as bolsas. No final não deu certo, como mostram as últimas semanas de quedas sucessivas nos índices S&P 500, Nasdaq e Dow Jones. Este último, por sinal, já teve oito semanas consecutivas de resultados negativos, a maior sequência em quase um século!

O pessimismo segue dominante na profissão. Há, porém, uma mudança nos problemas que mais preocupam os economistas.

Até recentemente, a novidade era a inflação alta, sempre surpreendendo para cima. A guerra na Ucrânia, claro, ajudou, pressionando os preços das commodities, já em alta com a retomada pós-pandemia. Com isso caiu por terra o discurso da inflação transitória, que cairia sozinha, que muitos bancos centrais (BCs) vinham adotando.

A preocupação com a inflação não desapareceu, mas deixou de ser polêmica, virou consenso, com os BCs agora subindo os juros e prometendo mais aperto, e por mais tempo, até trazer a inflação para a meta. A nova área de pessimismo agora diz respeito ao ritmo de crescimento econômico.

Que a economia vai desacelerar é consenso. No seu Panorama Econômico Global, do mês passado, o FMI cortou a projeção de crescimento mundial em 2022 e 2023 para 3,6%, respectivamente 0,8 e 0,2 ponto percentual a menos do que previa antes. Essa taxa compara com alta 6,1% em 2021 e uma média de 3,7% ao ano em 2010-19.

Mais preocupante, porém, é que boa parte da expansão este ano vem do bom desempenho na segunda metade de 2021, o chamado carregamento estatístico, e não da expansão da atividade este ano. Assim, o Fundo projeta que no último trimestre deste ano o PIB mundial esteja apenas 2,5% acima do observado ao final de 2021.

Provavelmente, porém, mesmo essa taxa mais baixa ainda superestima o crescimento mundial este ano, em que pese todo o ganho decorrente da normalização econômica, com o (quase) fim da pandemia na maioria dos países. Isso por vários fatores que vêm impactando as principais economias do mundo.

A Europa sofre com a forte escalada dos preços de energia, não só o petróleo, mas também o gás natural, insumo essencial para a geração elétrica e boa parte da indústria. Para as famílias, essa alta de preços reduz a renda disponível para o consumo de outros bens e serviços. Para as empresas, compromete sua competitividade. Soma-se a isso a gradual retirada de estímulos monetários, com os juros voltando ao terreno positivo até o final do ano, e fiscais, com os governos preocupados com todo aumento do endividamento público durante a pandemia. A própria guerra na Ucrânia, que não deve acabar tão cedo, prejudica o crescimento, ao reduzir a confiança de empresas e consumidores.

Nos EUA, o Fed, o BC americano, já sinalizou que subirá bastante os juros neste ano e no próximo. Isso já impactou as taxas de mercado – o retorno dos títulos públicos de dois anos saltou de 0,2% para 2,6% a. a. nos últimos nove meses – elevando o custo de capital das empresas. As taxas de juros em hipotecas também subiram bastante, com impactos negativos no mercado imobiliário, que vinha tendo ótimo desempenho. Além disso, a alta dos combustíveis reduz a renda disponível, enquanto a queda das bolsas diminui a riqueza, nos dois casos prejudicando o consumo de bens e serviços. Muitos analistas preveem que a economia americana entre em recessão na segunda metade de 2023.

A China, que já responde por quase um quinto do PIB mundial, está às voltas com a pandemia. A reação do governo chinês ao surgimento de novos casos é trancar as pessoas em casa, o que significa interromper a produção, o consumo etc. Isso tem, claro, pesado negativamente sobre a atividade econômica. Não há sinais de que tão cedo se verá uma solução para esse problema: agora que as coisas melhoram em Xangai, estão piorando em Pequim.

Muitos emergentes, em especial os que não produzem commodities, estão sofrendo com a piora do ambiente externo. Pesam aqui a alta do preço do petróleo e dos alimentos, o fortalecimento do dólar, o crescimento mais lento da China e a perspectiva de juros mais altos nos EUA e na Europa. Não se pode descartar que alguns países com maior endividamento externo enfrentem crises no próximo ano e meio.

Muito pessimismo? É possível. Mas que a situação está ficando mais complicada, está.

Este artigo foi publicado originalmente pelo Correio Braziliense em 25/5/2022 e posteriormente no Blog do IBRE em 01/06/2022.

 

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

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Autor(es)

  • Armando Castelar Pinheiro

    Coordenador de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia (FGV IBRE) e professor do Instituto de Economia da UFRJ. Atuou como analista da Gávea Investimentos, pesquisador do IPEA e chefe do Departamento Econômico do BNDES, tendo lecionado nos programas de pós-graduação da PUC-Rio e da FGV EPGE. Castelar é Ph.D. em Economia pela Universidade da Califórnia, Berkeley, formado em Engenharia Eletrônica pelo ITA e mestre em Estatística pelo IMPA e em Administração de Empresas pela COPPEAD. É membro do Conselho Superior de Economia da FIESP e articulista dos jornais Valor Econômico e Correio Braziliense.

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