Tendências do home office no Brasil

Home office traz qualidade de vida e produtividade. Alta da produtividade vem de escolaridade, renda e tipo de ocupação, mas é preciso investir em ferramentas de gestão e revisão de contratos de trabalho para sustentar modelo.

Economia
16/03/2023
Stefano Pacini
Rodolpho Tobler
Viviane Seda Bittencourt

Trabalhar de casa não é um fenômeno que teve início na era da pandemia. Segundo estudo de Barrero, Bloom, Buckman e Davis[1], a parcela de trabalhadores remotos no total da população ocupada dobrava a cada 15 anos antes de 2020.  Mas o crescimento desta prática durante a pandemia foi equivalente a 30 anos de crescimento pré-pandêmico.

Alguns estudos vêm apontando que o home office elevou os níveis de bem-estar e satisfação com a vida de seus adeptos na comparação com os trabalhadores que continuaram a trabalhar presencialmente, gerando também economia de tempo e dinheiro com deslocamentos e disseminando a possibilidade de se trabalhar de qualquer lugar.

Além disso, de acordo com Bloom (2022)[2], no novo modelo de trabalho remoto, as empresas passaram a perder menos funcionários em suas equipes e os feedbacks de satisfação com o trabalho também aumentaram. Nos Estados Unidos e na Europa as empresas são mais abertas ao trabalho remoto, enquanto na América do Sul a prática é ainda menos utilizada, seja por questão cultural, perfil do mercado de trabalho ou por carência de infraestrutura.

Existem divergências entre o que a empresa e o trabalhador percebem como benefícios. Os trabalhadores percebem aumento da produtividade, algo que muitas vezes se confunde com a melhor utilização do tempo, com a redução da necessidade de grandes deslocamentos em dias úteis. No Brasil, o FGV IBRE vem tentando medir a percepção de produtividade no home office tanto pelo lado das empresas quanto pela dos trabalhadores[3]. Além disso, a enquete especial incluída nas sondagens de outubro passado procura entender as características deste trabalho remoto e o número de dias que vem sendo adotado de home office pelas empresas, um resultado que pode ser comparado ao que vinha ocorrendo no período mais crítico da pandemia.

Proporção de empresas adotando o home office

Em 2021, 57,5% das empresas afirmam ter adotado o modelo home office no Brasil, de forma parcial ou total, incluindo os que já adotavam essa modalidade antes da pandemia. Esse percentual diminuiu para 32,7% em outubro de 2022[4]. A Indústria e o Setor de Serviços, que se haviam se destacado durante a pandemia, quando atingiram proporções de adoção de home office por 72,4% e 65,5% das empresas, respectivamente, reduziram o uso do trabalho remoto para 49% e 40,3%.

Gráfico 1 – Proporção de empresas que adotaram o trabalho remoto ou regime de home office na pandemia e atualmente (%)


Fonte: FGV IBRE

Há diferenças perceptíveis entre os segmentos dentro dos grandes setores.  No setor de serviços, 89,5% das empresas do segmento de Serviços de Informação e Comunicação adotaram ou já adotavam algum tipo de trabalho remoto em 2021. Atualmente esse percentual continua alto, mas caiu para 74,2%. Nos Serviços Prestados às Famílias, em que o uso do home office alcançou 36,7% das empresas durante a pandemia, a prática caiu a 12,8% em outubro (tabelas em anexo). Entre os Serviços Prestados às Famílias a maior redução do uso de home office ocorreu nos Serviços de Acomodação.

Proporção de colaboradores em regime remoto

A proporção de colaboradores em trabalho remoto pouco se alterou entre 2021 e 2022, sugerindo que as empresas que mantiveram a prática possam ter aumentado o número de trabalhadores em regime remoto. Hoje, o maior percentual foi registrado na construção (40,9%) e o menor no Comércio (13,4%). No ano anterior essas proporções haviam sido de 23,3% e 11,2%, respectivamente.

Gráfico 2 - Proporção dos colaboradores em regime remoto ou home office (%)


Fonte: FGV IBRE

Na percepção dos trabalhadores[5], entre 2021 e 2022 observa-se também uma diminuição da prática do trabalho remoto: o percentual de trabalhadores com algum dia em home office passou de 55,5% em 2021 para 34,1% em 2022.

Gráfico 3 – Proporção de trabalhadores em home office e número médio de dias de trabalho remoto por semana (%)


Fonte: FGV IBRE

A redução do percentual de trabalhadores em home office pode ser por influência da melhoria do quadro pandêmico, com redução das restrições à mobilidade urbana e retorno da vida próxima à normalidade. Em 2021, por mais que a pandemia começasse a ter números menos negativos no aspecto da saúde, ainda se vivia sob um clima de maior incerteza sobre a Covid-19.

Estudo de Barrero, Bloom e Davis (2021)[1], mostra que nos EUA havia desigualdade nos trabalhos remotos. No grupo de pessoas com maior escolaridade se obtinha um percentual maior de pessoas que recebiam para trabalhar de forma integral em casa. Ao longo da pandemia, 63,4% das pessoas com graduação trabalhavam de casa integralmente, um número que caiu posteriormente a 30,7%. Enquanto o uso de home office por pessoas que não possuíam ensino médio completo caiu de 24,6%, durante a pandemia, para 12,8%.

Essa desigualdade também pode ser notada nos dados da Sondagem do Consumidor do FGV IBRE. Das pessoas que estavam trabalhando, foi observado que o home office é predominante nas categorias salariais[2] mais elevadas. No grupo de pessoas de renda mais baixa, 82,8% das pessoas estavam com trabalho totalmente presencial em outubro de 2022. Quando se olha na faixa de renda mais alta, o percentual de trabalho presencial ou em home office quase se equivalem.

Gráfico 4 - Proporção de trabalhadores com pelo menos um dia em home office ou totalmente presencial, por faixa de renda


Fonte: FGV IBRE

Percepção sobre impacto do home office na produtividade

Outra questão abordada na pesquisa com as empresas foi em relação à percepção dos impactos na produtividade. Em 2021, cerca de 21,6% das empresas que adotaram home office observaram aumento na produtividade dos colaboradores enquanto 19,4% apontavam redução. Em 2022, a proporção de empresas que notaram aumento da produtividade de seus colaboradores aumentou para cerca de 30%, 8 pontos percentuais a mais do que no ano anterior, enquanto as que avaliam que houve perda de produtividade diminuiu para 10,2%. Esse saldo positivo na percepção da produtividade de 2,2% em 2021 para 19,5% em 2022 foi influenciado pelas respostas nos setores industrial e de Serviços. Na Construção, houve aumento da proporção de empresas que vêm observando queda na produtividade.

Gráfico 5 - Percepção das empresas sobre a produtividade dos colaboradores com o trabalho remoto ou home office (Saldo das Respostas em pontos percentuais)


Fonte: FGV IBRE

O ganho ou perda de produtividade também foi mensurado: as empresas reportam 23,0% de aumento médio na produtividade em outubro de 2022 contra 20,7% em setembro de 2021. Entre os que apontaram redução da produtividade, a taxa média de queda foi de 15,4% em 2022 contra 20,6% em 2021. Esse padrão simétrico ocorre nos principais setores, mas não dentro dos segmentos. A magnitude dos ganhos de produtividade cresceu na Indústria, ou seja, as empresas desse setor observam um aumento de produtividade de 30,4% em 2022 (contra 25,2% em 2021). Enquanto isso, no Comércio foi percebido uma perda de produtividade da ordem de 20,2% em 2021 e de 26,3% em 2022.

Gráfico 6 - Aumento médio da produtividade dos colaboradores com o trabalho remoto ou home office (%)


Fonte: FGV IBRE

Produtividade e número de dias no regime remoto são alguns pontos em divergência entre empresas e seus colaboradores. Como vimos acima, entre as empresas, apenas 19,5% consideram ter ocorrido aumento na produtividade com a adoção do home office. Já entre os trabalhadores, a maioria se considera mais produtivo no trabalho remoto.

Gráfico 7 - Percepção dos trabalhadores sobre produtividade no trabalho remoto, em %


Fonte: FGV IBRE

Número de dias em home office hoje e no futuro

Consultamos as empresas quantos dias os colaboradores estão em regime remoto dividindo as áreas administrativas e operacionais, e qual a expectativa da empresa para o esse regime no futuro. Em 2021, a média de dias dos colaboradores em home office da área administrativa era de 3,1 dias em média e a perspectiva era de redução para 1,7 dia. Em 2022, a média de dias em home office se manteve ligeiramente estável, ou seja, próxima a 3 e a perspectiva é que se mantenha no futuro.

De uma maneira geral, as empresas esperavam, a partir da normalização dos negócios, que o modelo de home office diminuísse significativamente, o que efetivamente não aconteceu. Ao contrário, ele cresceu nas áreas operacionais de 1,1 dia por semana em 2021 para 1,6 dia em 2022 e a perspectiva é que fique em 1,4 dia no futuro.

Tabela 1 - Média de dias por semana dos colaboradores estão trabalhando remoto ou home office


Fonte: FGV IBRE

Bloom, Barrero e Davis (2022)[6]  obtiveram resultados próximos aos observados nas Sondagens. O gráfico abaixo mostra que os empregadores nos Estados Unidos pretendem manter cerca de 2,4 dias de trabalho em casa. Esse número cresceu desde que a pesquisa Working from home (WFH), começou a ser divulgada em agosto de 2020. Em setembro de 2021, a expectativa de dias de home office após a pandemia era de 1,2 dia na semana. O gráfico e a tabela abaixo mostram a evolução dos dias de trabalho remoto entre as pesquisas.

Gráfico 8 - Evolução dos dias esperados de manutenção de home office por parte dos empregadores após a pandemia


Fonte: WFH Survey e FGV IBRE

Em outra pesquisa do FGV IBRE, na Sondagem do Mercado de Trabalho, também houve um quesito em outubro de 2022 sobre o tema Home Office. A pesquisa tem desenho amostral e estrutura diferente da Sondagem do Consumidor, mas mostra um resultado sobre os principais fatores positivos de se trabalhar de casa na visão das pessoas que estavam trabalhando pelo menos um dia da semana nessa modalidade. Chama atenção que apenas 4% das pessoas entrevistadas afirmaram não ver nenhum ponto positivo no trabalho remoto, e muitas delas marcaram mais de uma opção como fator positivo (por isso a soma ultrapassa os 100% de respostas). Os dois fatores mais citados foram a vantagem de não se perder tempo com deslocamentos e em possuir horários mais flexíveis.

Gráfico 9 -Principais pontos positivos no trabalho remoto, em %


Fonte: FGV IBRE

Em síntese, a percepção das empresas e dos trabalhadores de que o fenômeno do home office tenderia a se reduzir drasticamente com o avanço da vacinação e o controle da pandemia parece ser diferente de um ano atrás. Os benefícios de qualidade de vida e produtividade é observado por ambos embora em magnitudes diferentes. O aumento da produtividade do home office parece estar fortemente relacionado com o nível de escolaridade e a consequente renda dos trabalhadores e de seu tipo de ocupação nos setores econômicos, pelo lado das empresas isso depende do investimento das empresas em ferramentas de gestão capazes de medir o desempenho e garantir a sustentabilidade desse modelo no longo prazo com uma revisão dos contratos de trabalho.


[1] Barrero, Jose Maria, Nicholas Bloom, and Steven J. Davis. Internet Access and its Implications for Productivity, Inequality, and Resilience. No. w29102. National Bureau of Economic Research, 2021.

[2] Bloom, Nickolas; Hian, Ruobing e Liang James. Julho de 2022, ”HOW HYBRID WORKING FROM HOME WORKS OUT”; NATIONAL BUREAU OF ECONOMIC RESEARCH.  

[3] 1500 respondentes da Sondagem do Consumidor, 4000 respondentes das Sondagens Empresariais em outubro de 2021 e 2022e 1500 da Sondagem do Mercado de Trabalho em outubro de 2022.

[4] Entre os dias 01 e 27 de outubro de 2022 foram entrevistadas aproximadamente 4000 empresas sobre o assunto, incluindo quesitos sobre os seguintes temas: adoção do home office; impacto na produtividade da empresa; e manutenção do trabalho remoto.

[5] Sondagem do Consumidor aplicada em setembro de 2021 e outubro de 2022 com média de 1500 consumidores.

[6] Survey of Working Arrangements and Atitudes (SWAA), Bloom, Barrero e J, Davisa

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

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Autor(es)

  • Stefano Pacini

    Analista da Sondagem da Indústria do Instituto Brasileiro de Economia (FGV IBRE) e bacharel em Economia pela UFF.

  • Rodolpho Tobler

    Coordenador das Sondagens do Comércio e de Investimentos da Superintendência Adjunta para Ciclos Econômicos (FGV IBRE). Mestrando em Economia e Finanças pela Escola Brasileira de Economia e Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV EPGE) e bacharel em Ciências Econômicas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FCE/UERJ).

  • Viviane Seda Bittencourt

    Possui mestrado em Economia pela Fundação Getulio Vargas (2011). Atualmente é coordenadora do Núcleo de Ciclos Econômicos do Instituto Brasileira de Economia. Tem experiência na área de pesquisa, macroeconomia, consumidor, confiança e ciclos econômicos.

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