A tokenização de ativos na nova economia digital

O mercado de ativos digitais como moedas, tokens de utilidade e outros tipos de tokens nativos tem ganhado bastante tração, e os aproximados 800 bilhões de dólares de capitalização de mercado atuais.

Economia
17/01/2023
Alexandre Ludolf
Jéfferson Colombo

“Apesar da recente turbulência no mundo dos criptoativos, a tokenização de ativos e o uso da tecnologia de blockchain deverão crescer nos próximos anos. Não à toa, no encontro do Fórum Econômico Mundial (WEF) de 2023 serão discutidas diversas aplicações de tecnologias de registro descentralizadas, tais como Web3 e Tokenização de ativos, e seu papel na nova economia digital.”

O mercado de ativos digitais como moedas, tokens de utilidade e outros tipos de tokens nativos tem ganhado bastante tração, e os aproximados 800 bilhões de dólares de capitalização de mercado atuais, mesmo após queda expressiva nos preços nos últimos meses, denotam o grande potencial da tecnologia. Contudo, os tokens nativos – moedas digitais intrinsecamente ligadas a uma blockchain específica, normalmente usados para recompensar mineradores ou validadores das transações lá registradas – são apenas uma pequena fração de todo potencial que as tecnologias decentralizadas podem alcançar.

O principal valor de tecnologias de registro decentralizadas (DLTs da sigla em inglês) é transformar a maneira como a propriedade ou custódia de qualquer ativo é definida, protegida e negociada. Este processo tem a capacidade de substituir o papel das entidades centralizadas tradicionais que, em arcabouços socioeconômicos convencionais, costumam atuar como os garantidores desses ativos e direitos.

A tokenização é o processo que consiste na criação de uma representação digital de um ativo, que pode ser facilmente negociada, fracionada e transacionada em uma rede blockchain. O mercado de representação digital de ativos reais tem avançado a passos largos no Brasil e no mundo, com diversos casos de uso em bens tangíveis, como imóveis, veículos e obras de arte. A sua grande vantagem é tornar o mercado para negociação desses ativos mais acessível e líquido. Além disso, a tokenização também pode ser utilizada para facilitar a gestão e transferência de ativos intangíveis, como direitos autorais e royalties. Apesar disso, é no âmbito dos serviços financeiros, como uma infraestrutura de liquidação e negociação, que a tecnologia tem mostrado grande promessa, apresentando propriedades superiores às tecnologias existentes.

Para as instituições financeiras, utilizar versões tokenizadas de instrumentos financeiros tradicionais pode melhorar a eficiência operacional, garantir a finalidade das transações e sua auditabilidade de forma independente. Estas características são fundamentais para expandir a oferta e o alcance de serviços financeiros e reduzir assimetria informacional entre entidades e clientes.

Como exemplos concretos, instituições financeiras globais como o Société Générale, HSBC, Standared Chartered, JP Morgan, DBS e SBI fizeram ofertas de tokens lastreados por diferentes ativos nos últimos doze meses. Além disso, diversos outros bancos estão executando projetos pilotos que vão de aplicações de finanças decentralizadas, ofertas de títulos públicos e privados, tokenização de moedas fiduciárias e até de produtos de gestão de recursos.

Apesar do crescimento acelerado, o tamanho dos mercados de tokenização de ativos ainda é muito pequeno se comparado aos ativos análogos convencionais. Como medida de grandeza, o TVL (Total Value Locked, da sigla em inglês) de ativos reais na rede Ethereum atingiu 612 milhões de dólares ao fim de 2022 (e atingiu seu pico de 1,75 bilhão de dólares ao fim do segundo trimestre de 2022). A adoção dessa tecnologia ainda esbarra em diversas barreiras regulatórias e tecnológicas.

No Brasil, a CVM está rodando um sandbox regulatório de tokenização, permitindo que projetos pilotos emitam tokens representando valores mobiliários dentro de um ambiente regulado e monitorado pela autarquia. Este é o primeiro passo para a construção de normas que permitam a ampla tokenização regulamentada no Brasil. No início de 2023, já existem representações digitais de cotas de fundos, debêntures e imóveis, todos operando dentro do ambiente do sandbox. Além disso, há diversas tokenizadoras focadas em emissão de representações digitais fora do ambiente regulado.

Portanto, apesar dos enormes desafios nos âmbitos tecnológico e regulatório, as potencialidades para a tokenização de ativos são imensas. Uma survey recente conduzida pela Bakkt (bolsa de ativos tokenizados do grupo ICE, dona da NYSE) mostra que, mesmo com o escândalo recente da FTX, a visão preponderante de usuários e curiosos norte-americanos é de que criptoativos representam o próximo grande avanço nas finanças modernas. Não à toa, o próximo encontro do Fórum Econômico Mundial, a ser realizado ainda em janeiro de 2023, abordará muitos temas ligados a aplicações de blockchain e seu papel na nova economia digital. Ao que tudo indica, há enorme espaço para a tokenização de ativos, e esta poderá ser a infraestrutura de registro, negociação e liquidação do futuro.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

Autor(es)

  • Alexandre Ludolf

    Professor convidado do Mestrado e Doutorado Profissionais (MDPE) da FGV EESP, onde leciona a disciplina de Criptofinanças e Sócio e CIO da QR Capital. Engenheiro pela PUC-Rio e Mestre em Economia pela FGV, com 18 anos de experiência como gestor de fundos de investimento e passagem por diversas instituições como Santander, Safra e Mirae Asset. Possui vasta experiência na gestão de fundos de investimento e é um entusiasta de tecnologia, investidor de ativos digitais e startups.

  • Jéfferson Colombo

    Professor de Finanças na Escola de Economia de São Paulo (FGV EESP). É economista e possui Doutorado em Economia Aplicada pelo PPGE/UFRGS (2016), com período sanduíche realizado na Universidade de Illinois em Urbana-Champaign. É membro fundador do International Finance and Banking Society (IFABS) na América Latina, coordenador da FGV junto ao University Blockchain Research Initiative (UBRI), e vice-coordenador do Mestrado e Doutorado Profissionais em Economia da FGV EESP (MPE/DPE). É também Pesquisador Permanente do Centro de Estudos Quantitativos em Economia e Finanças da FGV (CEQEF/FGV) e líder de projeto de pesquisa financiado pelo CNPq.

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