As transformações do trabalho na Pandemia: desafios e lições aprendidas

Atualmente discute-se, inclusive, se a modalidade irá se manter após a pandemia. Ainda que não seja possível afirmar com exatidão, há indícios de que ela veio para ficar. A pandemia parece ter somente acelerado um movimento que já estava acontecendo.

Administração
21/09/2021
Vanessa Martines Cepellos

O primeiro caso de Coronavírus confirmado no Brasil foi em 26 de fevereiro de 2020. Em março, foram regulamentados critérios de isolamento e quarentena para conter o avanço do vírus e, a partir de então, uma nova realidade se instaurou.

Com relação ao contexto de trabalho, adaptações tiveram que ser feitas de forma rápida e sem planejamento. Pessoas que se deslocavam até os escritórios passaram a trabalhar de suas casas por meio do homeoffice. Outras não tiveram essa oportunidade e seguiram suas atividades no modo presencial, o que exigiu cuidados redobrados: o uso de máscara, álcool em gel e distanciamento social foram as medidas de segurança adotadas para evitar a contaminação.

A partir da adoção do homeoffice por grande parte das empresas, surgiram questionamentos acerca do engajamento e produtividade dos colaboradores. Isso porque ainda temos uma concepção de controle do trabalho que prejudica a autonomia e autogestão dos profissionais. Então, algumas práticas foram implementadas a fim de manter as atividades funcionando e promover condições adequadas de trabalho aos colaboradores. O apoio e suporte aos profissionais com relação à disponibilização de recursos tecnológicos, happy hour virtual que visava aproximar as pessoas, reuniões constantes para checar o andamento das atividades e bem-estar individual foram algumas das providências tomadas pelas empresas durante a pandemia devido ao trabalho realizada fora dos escritórios. Outras medidas para promover melhor condições de trabalho também foram aderidas pelas empresas, como a promoção de programas de saúde mental (meditação, psicólogos, aplicativos de exercícios físicos, etc) e a transformação de vale-transporte para despesas domésticas foram algumas delas.

Apesar das iniciativas, o homeoffice trouxe imensos desafios. Nem sempre o espaço físico comportava tantas pessoas trabalhando ou estudando ao mesmo tempo. Crianças interrompiam os pais durante as reuniões. Os pais participavam ativamente das aulas online dos filhos. Todos nós tivemos que nos adaptar a essas situações e sermos tolerantes. Estimular a proximidade dos colaboradores, mesmo à distância, foi um obstáculo a ser superado pelas empresas. Manter a cultura organizacional por meio de plataformas virtuais foi outra dificuldade enfrentada.  Apesar dos contratempos, o homeoffice tornou-se possível.

Atualmente discute-se, inclusive, se a modalidade irá se manter após a pandemia. Ainda que não seja possível afirmar com exatidão, há indícios de que ela veio para ficar. A pandemia parece ter somente acelerado um movimento que já estava acontecendo. Houve um aprendizado, as empresas se estruturaram para que o homeoffice se tornasse viável e investimentos foram realizados. Além disso, profissionais viram vantagens: a redução do tempo no trânsito, a proximidade com a família, a possibilidade de usar o tempo livre com outras atividades. Colaboradores desenvolveram competências importantes como flexibilidade, conhecimento em tecnologia, gestão do tempo, entre outras, que serão cada vez mais demandadas e utilizadas nas dinâmicas de trabalho. Neste sentido, podemos imaginar que o homeoffice não terá sido exclusivamente uma medida de proteção aos profissionais, mas uma possibilidade real de atuação após a pandemia.

Algumas situações enfrentadas, no entanto, não foram capazes de serem superadas por algumas organizações. Infelizmente, muitas tiveram prejuízos financeiros que acarretaram demissões ou até mesmo encerramento das atividades. Além disso, em outras ocasiões a pandemia influenciou diretamente na saúde dos profissionais e dos familiares, impactando na motivação, disposição e continuidade das atividades de trabalho. Neste contexto, a necessidade de desenvolver a empatia e de um respeito ainda maior pelas pessoas dentro das organizações se mostrou ainda mais importante.

Pode-se concluir que as organizações empenharam esforços para lidarem com as adversidades advindas da pandemia e, ao mesmo tempo, consolidaram importantes lições neste contexto de urgência. Espera-se, no entanto, que essas lições não se percam após o fim da pandemia. O desejo é que as empresas sigam sendo mais humanas e cuidando do seu bem maior: as pessoas.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

Autor(es)

  • Vanessa Martines Cepellos

    Doutora e mestre em Administração de Empresas pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV EAESP) na linha de pesquisa de Estudos Organizacionais. Graduada em Administração de Empresas pela FAAP. Desde 2017, atua como professora da FGV EAESP onde leciona a disciplina de Organizações, Gestão de Pessoas e Gestão de Carreiras.

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