Aumento de custos provoca renegociação de contratos na construção

Desde 2020, construtoras enfrentam disparada de custos.  FGV IBRE adicionou quesitos na Sondagem para entender e dimensionar importância da questão e, principalmente, saber se há hoje risco iminente de paralisação das obras.

Economia
29/08/2022
Ana Maria Castelo

Desde 2020, a despeito de uma aceleração do nível de atividade do setor, as construtoras vêm enfrentando muitas dificuldades com a disparada dos custos de construção. Primeiro, com uma forte alta das matérias-primas e, mais recentemente, também da mão de obra.

Entre julho de 2020 e julho de 2022, o INCC-DI subiu 31%. O componente Materiais e Equipamentos teve alta de 51,5% no mesmo período, em decorrência da elevação expressiva de insumos como aço (94%), tubos (77,9%) e eletrodutos de PVC (67,5%).

Na Sondagem da Construção do FGV IBRE, o quesito “custo da matéria-prima” assumiu em junho de 2021 a liderança no ranking dos fatores limitativos à melhora dos negócios e vem se mantendo como uma das mais relevantes dificuldades enfrentadas pelo setor desde então.

Em julho, o FGV IBRE adicionou quesitos na Sondagem buscando entender e dimensionar a importância da questão e, principalmente, saber se há, no momento, risco iminente de paralisações das obras. Vale lembrar que o setor da construção tem sido um importante gerador de empregos, contribuindo para a recuperação do mercado de trabalho nos dois últimos anos.

Foram feitas três perguntas às empresas: se elas estão tentando renegociar contratos face à evolução recente de custos. Em caso afirmativo, perguntou-se se elas estão sendo bem-sucedidas nas negociações; e por último, qual o risco de paralisação das obras.

A pesquisa confirmou que a maioria das empresas (52,4%) está tentando renegociar contratos. Alguns segmentos destacaram-se com percentuais acima da média do setor, como o de Obras de Infraestrutura para Engenharia Elétrica e para Telecomunicação (70,5%) e o de Obras de Montagem, com 61,6%.  No segmento de Edificações Residenciais, que tem participação expressiva na geração de renda e emprego, 52,2% das empresas assinalaram a iniciativa de renegociar.

Segmentos

Face à evolução recente de custos, a empresa vem tentando renegociar contratos?

Sim

Não

 Setor da Construção       

52,4

47,6

 Preparação do Terreno     

51,6

48,4

 Construção de Edifícios e Obras de Engenharia Civil         

50,6

49,4

 Edificações               

49,5

50,5

 Edificações Residenciais  

52,2

47,8

 Edificações não Residenciais               

44,5

55,5

 Obras Viárias             

48,5

51,5

 Obras de Arte Especiais + Obras de Outros Tipos             

54,0

46,0

 Obras de Montagem         

61,6

38,4

 Obras de Infraestrutura para Engenharia Elétrica e para Telecomunicações

70,5

29,5

 Obras de Instalações      

54,7

45,3

 Obras de Acabamentos      

54,3

45,7

 Outros Serviços para Construção            

36,6

63,4

Fonte: FGV IBRE

Entre as empresas que disseram que estão renegociando o contrato, 47,1% das empresas responderam que a renegociação está sendo bem-sucedida. No entanto, vale o destaque para o percentual relevante de 31,3% que disseram ainda estão aguardando a resposta da renegociação. Além disso, 21,6% delas afirmaram que não estão sendo bem-sucedidas nas renegociações.

Entre os segmentos com maiores percentuais de renegociação bem-sucedida estão aqueles relacionados a serviços, como o de Obras de Acabamentos (81,4%), Obras de Instalações (61,9%) e Outros Serviços para Construção (62,1%).

Um ponto de destaque é que as empresas dos segmentos relacionados à infraestrutura, como os de Obras Viárias e Obras de artes, onde predominam contrato com o setor público têm percentuais acima da média dos demais - de 40,2% e 39,3% - de que ainda estão aguardando a resposta da renegociação do contrato.

Segmentos

(caso afirmativo) A renegociação está sendo bem-sucedida?

Sim

Não

A empresa ainda não obteve resposta sobre seu pedido

 Setor da Construção       

47,1

21,6

31,3

 Preparação do Terreno     

42,5

22,4

35,1

 Construção de Edifícios e Obras de Engenharia Civil         

39,3

25,6

35,1

 Edificações               

38,8

28,2

33,0

 Edificações Residenciais  

48,2

22,6

29,2

 Edificações não Residenciais               

30,4

38,9

30,7

 Obras Viárias             

37,1

22,7

40,2

 Obras de Arte Especiais + Obras de Outros Tipos             

38,5

22,2

39,3

 Obras de Montagem         

55,6

15,9

28,5

 Obras de Infraestrutura para Engenharia Elétrica e para Telecomunicações

53,1

7,0

39,9

 Obras de Instalações      

61,9

21,5

16,6

 Obras de Acabamentos      

81,4

5,2

13,4

 Outros Serviços para Construção            

62,1

19,2

18,7

Fonte: FGV IBRE

Por fim, pode-se dizer que para o conjunto das empresas do setor, o risco de paralisação de obras é ainda relativamente baixo: para 77,1% das empresas não há risco de paralisação.

Mas há segmentos, como os de Obras viárias e Obras de artes, em que mais de 20% das empresas apontam risco de paralisação. Estes são segmentos que possuem contratos majoritariamente com entes públicos. O setor de Obras viárias é responsável pela construção de estradas e ruas. O de Obras de arte, pela construção de tuneis, viadutos, pontes etc.

O aumento expressivo dos custos em curto período atingiu contratos em andamento, causando grande desarranjo nas empresas. Assim, a iniciativa de renegociar os contratos no cenário de forte elevação dos preços dos materiais era esperada e a pesquisa confirmou esse movimento, que parece ser bem-sucedido para a maioria das empresas. No entanto, a pesquisa traz um sinal de atenção para os segmentos de obras viárias e de artes onde há um risco mais elevado de paralisação e onde também há maior indefinição em relação ao pedido de renegociação junto ao setor público, principal contratante dessas obras.

Segmentos

Há risco de paralisação da obra em 2022?

Sim

Não

Não sabe

 Setor da Construção       

12,5

77,1

10,4

 Preparação do Terreno     

21,2

66,7

12,1

 Construção de Edifícios e Obras de Engenharia Civil         

15,8

74

10,2

 Edificações               

11,7

77,1

11,2

 Edificações Residenciais  

10,3

79,2

10,5

 Edificações não Residenciais               

13,2

75,4

11,4

 Obras Viárias             

23,5

68,8

7,7

 Obras de Arte Especiais + Obras de Outros Tipos             

22,3

67,2

10,5

 Obras de Montagem         

17,1

76,3

6,6

 Obras de Infraestrutura para Engenharia Elétrica e para Telecomunicações

1,2

84,5

14,3

 Obras de Instalações      

8,5

81,1

10,4

 Obras de Acabamentos      

12,3

87,7

0

 Outros Serviços para Construção            

5,7

84,9

9,4

Fonte: FGV IBRE

O artigo foi publicado originalmente em 23 de agosto de 2022 no Blog do IBRE.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

Autor(es)

  • Ana Maria Castelo

    Desde 2010 é coordenadora de Projetos da Construção na Fundação Getulio Vargas/IBRE onde comanda e desenvolve estudos e análises setoriais. Também é coeditora da Revista Conjuntura da Construção, publicação trimestral conjunta do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (SindusCon-SP) e da FGV. É responsável pela divulgação do INCC-M e da Sondagem da Construção da FGV. É professora da disciplina Economia da Construção no curso de MBA da Construção da FGV e mestre em economia pela Universidade de São Paulo (USP).

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