Reduzir a insegurança é importante para atrair investimentos

Investidores não gostam de incertezas e o Brasil nesse momento é um poço de incertezas. Somos um dos países com maior insegurança jurídica do mundo, assim como o segundo com legislação corporativa e tributária mais complexa.

Administração
02/09/2021
William Eid Junior

A fala de Jeromy Powell no encontro de Jackson Hole nos últimos dias trouxe boas notícias para os mercados do mundo e, em particular para o Brasil. O Quantitative Easing nos EUA vai continuar, com um tapering suave. Foi uma fala mais dovish do que era esperado.

Tradução: o presidente do banco central americano disse que vai continuar comprando ativos, mesmo que com uma velocidade menor. Essas compras começaram no início da pandemia Covid 19 e esperava-se uma redução maior no seu ritmo, coisa que aparentemente não vai acontecer. Isso significa a manutenção de alta liquidez nos mercados globais e, portanto, maior possibilidade de vinda de recursos externos como investimento para o Brasil. Mas, e sempre temos um mas, depois de atingir USD 75 bilhões em 2019 e cair para USD 44 bilhões em 2020, agora temos no primeiro semestre USD 25.7 bilhões, com uma previsão de fecharmos o ano em USD 60 bilhões. A queda em 2020 era esperada, o mundo parou, assim como o Brasil, que apresentou queda no PIB próxima de 5%.

O mundo vem se recuperando e os mecanismos que mantêm a liquidez global continuam mantidos, seja nos EUA, seja na Europa. A pergunta que fica é: por que não voltamos ao patamar anterior à crise? E a resposta é simples: investidores não gostam de incertezas e o Brasil nesse momento é um poço de incertezas. Nunca fomos um paraíso das certezas. Somos um dos países com maior insegurança jurídica do mundo, assim como o segundo com legislação corporativa e tributária mais complexa. Agora temos mais alguns complicadores nesse cenário. O primeiro é a crise fiscal, que já vem de 2015.

Lá o nosso déficit nominal atingiu 9.6% do PIB e de lá para cá não conseguimos reduzi-lo muito, mantendo um patamar em torno dos 8%. A título de comparação antes de 2015 o déficit girava em torno dos 4%. Como solucionar esse problema? Sinalizando claramente que estamos no caminho de reformas estruturais que coloquem o país nos trilhos, gastando menos do que arrecada. Recentemente tivemos algum alento com o início da reforma da previdência e também a trabalhista, mas isso foi interrompido e os sinais não são claros.

Ao mesmo tempo, temos uma crise política. Podemos elencar diversas causas, como a inabilidade do presidente, a qualidade do congresso ou muitas outras. Mas a verdade é que voltarmos a falar em golpe de estado nos equipara a repúblicas de bananas de meados do século passado. Os nossos dirigentes deveriam pensar mais no bem da nação e reduzir o tom de suas falas. Isso por si já reduziria o risco político. Claro, temos uma eleição em 2022 que acirra os ânimos, então vai ser difícil termos uma redução desse risco.

Será difícil retomarmos o nível de investimentos diretos do exterior anterior à pandemia seja em 2021 e também em 2022. Pena, pois o Brasil andará na contramão do mundo, que provavelmente vai entrar na estrada do crescimento.

Podemos olhar para o investimento em portfólio, em particular para o investimento em ações via B3. Há a expectativa de aumento dos investimentos com base no preço dos ativos brasileiros. Estão muito baratos seja pela desvalorização do real, seja porque a nossa bolsa não acompanhou as principais bolsas do mundo na sua recuperação. Porém há entraves, além dos riscos que também afetam os investimentos diretos citados acima. A proposta da tributação de dividendos da reforma tributária é uma delas, mas também no exterior o medo de uma retração causada pela variante delta assusta e pode deixar o investidor estrangeiro mais arredio.

De toda forma, reduzir os riscos fiscal e político seria uma medida de muita ajuda na atração de recursos do exterior, tão necessários ao nosso crescimento.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

Autor(es)

  • William Eid Junior

    Diretor do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGVcef). Profissional formado nos cursos de graduação (1980), mestrado (1991) e doutorado (1995) em Administração de Empresas da Fundação Getulio Vargas de São Paulo-SP. Atualmente, é sócio fundador da Sociedade Brasileira de Finanças, coordenador do Centro de Estudos em Finanças (FGVcef) da FGV EAESP e professor titular da Fundação Getulio Vargas de SP. Tem experiência na área de Administração, com ênfase em Administração Financeira, atuando principalmente nos seguintes temas: séries temporais, previsões, análise financeira e inflação.

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