Após recuar em 2021, produtividade do trabalho apresenta nova queda em 2022

Os fatores que permitiram que a renda per capita crescesse acima da produtividade contribuirão menos no futuro e os com impacto negativo continuarão a exercer esta tendência. 

Economia
03/05/2023
Fernando Veloso
Silvia Matos
Fernando de Holanda Barbosa Filho
Paulo Peruchetti

O FGV IBRE elegeu a produtividade como uma das preocupações centrais de sua missão institucional de contribuir para o debate sobre o desenvolvimento econômico do país. Diante da relevância do tema, o FGV IBRE lançou o site Observatório da Produtividade Regis Bonelli, que reúne uma ampla base de dados sobre produtividade da economia brasileira, além de estudos e análises, a fim de fornecer informações para uma maior compreensão do tema e contribuir para a formulação de políticas públicas que possam aumentar a produtividade e impulsionar o crescimento econômico.[1]

Uma das motivações para o aprofundamento de estudos relacionados ao tema é a perda de dinamismo da economia brasileira ao longo dos últimos anos, intensificada pela forte recessão pela qual o país passou entre 2014 e 2016, uma das mais longas e profundas da história, e sua lenta recuperação entre os anos de 2017 e 2019. Este cenário ficou ainda mais grave com a forte queda do PIB em 2020, em função da pandemia de Covid-19, e sua perspectiva de fraca recuperação nos próximos anos, fazendo com que a discussão sobre o tema de produtividade ganhe ainda mais importância.

Diante da relevância desse tema, o objetivo deste texto é analisar a evolução da produtividade do trabalho desde o início da década de 1980[2] e sua relação com a renda per capita, com ênfase no seu comportamento desde 2020. O Gráfico 1 apresenta a evolução da renda per capita e da produtividade por hora trabalhada de 1981 até 2022.[3]

Gráfico 1: Evolução da renda per capita e da produtividade por hora trabalhada. Número índice (1981=100). Brasil: 1981-2022.

Fonte: Elaboração do FGV IBRE com base nas Contas Nacionais, Pnad e Pnad Contínua - IBGE

O Gráfico 1 mostra que, com exceção do período da pandemia entre 2020 e 2022, o comportamento da renda per capita sempre esteve bem correlacionado com a dinâmica da produtividade por hora trabalhada[4]. Para entendermos melhor a evolução da renda per capita, apresentamos na Tabela 1 uma decomposição do crescimento da renda per capita para períodos selecionados desde o início da década de 1980.[5]

Tabela 1: Decomposição do crescimento da renda per capita (em % ao ano). Brasil – Períodos selecionados.[6]

Fonte: Elaboração do FGV IBRE com base nas Contas Nacionais, Pnad, Pnad Contínua e estimativas populacionais do IBGE

Além do crescimento da produtividade por hora trabalhada, o aumento da renda per capita depende da jornada média de trabalho, que equivale à média de horas por pessoal ocupado (HORAS/PO). Outro fator relevante é a taxa de ocupação, que corresponde à proporção de trabalhadores ocupados em relação à população economicamente ativa (PO/PEA). Um terceiro determinante é a taxa de participação, caracterizada pela razão entre a população economicamente ativa e a população em idade ativa (PEA/PIA). Finalmente, a razão entre a população em idade ativa e a população total (PIA/POP) é uma medida da contribuição do bônus demográfico para o crescimento da renda per capita.[7]

Acesse a análise completa no Observatório da Produtividade Regis Bonelli.


[1]O site, disponível no endereço https://ibre.fgv.br/observatorio-produtividade, foi lançado no dia 4 de dezembro de 2019 no I Seminário de Produtividade e Reformas.

[2]As séries de produtividade do trabalho encontram-se disponíveis no site do Observatório da Produtividade Regis Bonelli. A metodologia de construção dos indicadores de produtividade do trabalho pode ser acessada através do link: https://ibre.fgv.br/sites/ibre.fgv.br/files/arquivos/u65/nota_de_construcao_dos_indicadores_pt_-_brasil_anual_desde_1981_-_final.pdf

[3]Neste texto, definimos renda per capita como sendo a razão entre o valor adicionado obtido das Contas Nacionais e a população do país. Optamos por usar a informação de valor adicionado para que a análise fique compatível com o cálculo da produtividade por hora trabalhada, que também considera a informação de valor adicionado. O dado de valor adicionado difere do PIB pois este equivale à soma do valor adicionado com os impostos (líquidos de subsídios) sobre os produtos.

[4] As medidas de produtividade utilizadas neste artigo foram construídas dividindo-se o Valor Adicionado obtido das Contas Nacionais pelo total de horas trabalhadas em todas as ocupações, obtido da PNAD e da PNAD Contínua. Em particular, na Pnad Contínua o IBGE disponibiliza duas medidas de horas trabalhadas: horas habitualmente trabalhadas e horas efetivamente trabalhadas. Desde 2012, consideramos a variável de horas efetivamente trabalhadas, que pode incluir reduções por motivo de doença, feriado, falta voluntária, atraso ou por outra razão, bem como aumentos por conta de pico de produção e compensação de horas não trabalhadas em outro período, como sendo a informação a ser considerada como medida do fator trabalho. No entanto, na PNAD anual não são disponibilizadas informações para horas efetivamente trabalhadas. Diante disso, para os anos anteriores a 2012, retropolamos a série de horas efetivamente trabalhadas com base na variação das horas habitualmente trabalhadas, visto que de 2012 a 2019 não havia grande diferença na variação das duas medidas de horas trabalhadas. Para mais detalhes, acesse a nota de construção dos indicadores de horas trabalhadas e pessoal ocupado no link a seguir: https://ibre.fgv.br/sites/ibre.fgv.br/files/arquivos/u65/nota_de_construcao_dos_dados_de_emprego_e_horas_trabalhadas_-_final.pdf

[5] Na Tabela 1, o primeiro ano de cada período refere-se ao ano-base da análise.

[6] A população em idade ativa (PIA) compreende as pessoas com idade entre 15 e 64 anos, ou seja, que estão aptas a exercer alguma atividade econômica. A população economicamente ativa (PEA) compreende o grupo de pessoas que estão ocupadas (PO) e desocupadas (que não trabalham, mas estão à procura de emprego). Os termos VA/POP e VA/HORAS são, respectivamente, a renda per capita e a produtividade por hora trabalhada.

[7] As informações sobre a população em idade ativa (PIA) foram retiradas das estimativas populacionais do IBGE.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

Do mesmo autor

Autor(es)

  • Fernando Veloso

    É pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (FGV IBRE) da Fundação Getulio Vargas (FGV) do Rio de Janeiro, professor da EPGE Escola Brasileira de Economia e Finanças (FGV EPGE) e pesquisador associado do Centro de Estudos em Crescimento e Desenvolvimento Econômico da FGV. PhD em Economia pela University of Chicago. Tem graduação em Economia pela Universidade de Brasília e mestrado na mesma área pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). É coordenador (com Silvia Matos) do Observatório da Produtividade Regis Bonelli.

  • Silvia Matos

    Coordenadora do Boletim Macro IBRE, responsável pela elaboração dos Cenários Macroeconômicos do Instituto. É Professora do Mestrado Profissional em Economia da FGV EPGE desde 2004.  Foi economista do Departamento de Pesquisa do Banco BBM (2005-2008). Entre 2009 e 2010 foi coordenadora do Núcleo de Soluções da Superintendência de Clientes Institucionais do FGV IBRE, atuando na área de Projeções Econômicas e Análises Setoriais. Possui publicações nas áreas de macroeconomia e crescimento econômico. Bacharel em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Mestre e Doutora em economia pela Escola de Pós-Graduação em Economia (FGV EPGE). Eleita Economista-Chefe 2019 pela Ordem de Economistas do Brasil.

  • Fernando de Holanda Barbosa Filho

    Atualmente é pesquisador do Centro de Crescimento Econômico (CCE) do Instituto Brasileiro de Economia (FGV IBRE) e professor da FGV. Possui mestrado em Economia pela EPGE Escola Brasileira de Economia e Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV EPGE), doutorado em Economia pela New York University e graduação na mesma área pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Tem experiência na área de Economia, com ênfase em Crescimento, Flutuações e Planejamento Econômico, atuando principalmente nos seguintes temas: educação, crescimento, capital humano e produtividade.

  • Paulo Peruchetti

    Assistente de pesquisa na área de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia (FGV IBRE). Mestre em Economia Empresarial e Finanças pela EPGE Escola Brasileira de Economia e Finanças (FGV EPGE) e bacharel em Economia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Trabalhou no acompanhamento e na elaboração das projeções dos principais indicadores macroeconômicos da economia brasileira. Atualmente atua na elaboração de estudos sobre desenvolvimento econômico, mercado de trabalho e produtividade.

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