Consequências surpreendentes do aumento do trabalho remoto

O aumento do trabalho remoto teve grande impacto no mercado de trabalho dos Estados Unidos. É possível que seus efeitos também ajudem a explicar o desempenho surpreendente do mercado de trabalho do Brasil nos últimos anos.

Economia
03/06/2024
Fernando Veloso

A pandemia de Covid-19 impôs severas restrições à mobilidade e intensificou a adoção de novas formas de organização do trabalho. Em particular, ocorreu uma ampla difusão do trabalho remoto ou work from home (WFH), com importantes impactos sobre o mercado de trabalho.

Um estudo recente de Steven Davis (“The Big Shift in Working Arrangements: Eight Ways Unusual”) resume os principais resultados de suas pesquisas sobre a evolução do trabalho remoto e seu impacto surpreendente no mercado de trabalho desde a eclosão da pandemia, realizadas em coautoria com Nicholas Bloom, José María Barrero e outros coautores.

Começando pelos Estados Unidos, Davis mostra que a proporção de dias trabalhados em casa aumentou de 7% em 2019 para um patamar em torno de 28% desde 2022, após ter atingido 50% no momento mais crítico da pandemia em 2020.

Existe grande heterogeneidade na parcela de trabalho remoto entre setores. A maior intensidade de WFH ocorre no setor de tecnologia da informação, com média de 2,6 dias de trabalho em casa por semana. Em seguida, destacam-se os setores de serviços financeiros (2,3) e serviços profissionais (2,0).

Esses setores possuem características que facilitam o trabalho em casa, como o caráter analítico das tarefas exigidas e o salário médio elevado dos seus trabalhadores, que permite o acesso a computadores, rede de internet de boa qualidade e maior espaço de trabalho em suas residências.

Outra característica marcante do trabalho remoto é sua forte correlação positiva com o nível de escolaridade. Esse fenômeno está associado com o padrão setorial de WFH, já que trabalhadores com maior escolaridade estão concentrados nos setores de tecnologia da informação, serviços financeiros e serviços profissionais.

Existem também diferenças significativas na adoção de trabalho remoto entre países. Com base em uma sondagem realizada com trabalhadores de 34 países, incluindo o Brasil, Davis e coautores documentam uma média de 0,9 dias trabalhados por semana na amostra como um todo em 2023.

Enquanto economias avançadas como Estados Unidos e Reino Unido têm 1,4 e 1,5 dias de WFH por semana, respectivamente, a média no Brasil, Chile, México e Argentina é de 0,9 dias por semana. Essas diferenças refletem principalmente o fato de que os países desenvolvidos possuem maior concentração do emprego nos setores com maior utilização de trabalho remoto, além da maior escolaridade média dos seus trabalhadores.

As pesquisas mostram que a maioria dos trabalhadores e empresas ficou favoravelmente surpresa com o nível de produtividade do trabalho realizado em casa durante a pandemia. A interpretação de Davis é que, embora já fosse possível adotar o trabalho remoto antes da pandemia, existia grande incerteza por parte das empresas em relação aos seus benefícios.

Nesse sentido, a pandemia desencadeou um processo de experimentação em larga escala que, diante da avaliação positiva por grande parte dos trabalhadores e empresas, resultou em uma reformulação profunda das relações de trabalho, cuja consequência mais imediata foram as taxas significativamente mais elevadas de WFH desde 2022 em comparação com o período pré-pandemia.

As pesquisas revelam que, segundo os trabalhadores, o principal benefício do trabalho remoto foi a redução do tempo de deslocamento para o trabalho. Estimativas apresentadas por Davis indicam que isso representou uma economia equivalente a cerca de 2% dos salários após impostos nos Estados Unidos, algo bastante elevado em valor presente.

O segundo benefício apontado pelos trabalhadores é a maior flexibilidade no uso do tempo. Trabalhar em casa dois ou três dias por semana permite uma melhor conciliação do trabalho com a vida pessoal, particularmente no caso de famílias com crianças no domicílio. Segundo muitos trabalhadores, o trabalho em casa também permite maior autonomia e oferece um ambiente mais produtivo que o trabalho presencial.

Outro aspecto positivo do trabalho remoto é a maior flexibilidade de escolha do local de moradia, em particular a possibilidade de morar em lugares mais agradáveis ou baratos localizados a uma maior distância do local de trabalho.

Embora essa percepção favorável sobre o trabalho remoto não seja consensual, o ponto principal é que uma parcela significativa dos trabalhadores atribui valor elevado a esses benefícios, com consequências surpreendentes em termos do funcionamento do mercado de trabalho.

A primeira consequência foi o grande salto no número de demissões voluntárias durante a pandemia, que caracterizou o fenômeno que ficou conhecido como “Great Resignation”. Segundo Davis, o termo mais apropriado seria “Great Re-Sorting”, na medida em que foi um processo de realocação maciça desencadeado por uma mudança nas percepções dos trabalhadores em relação aos arranjos de trabalho desejados.

A segunda consequência foi uma moderação das pressões salariais apesar do mercado de trabalho fortemente aquecido. Uma pesquisa para os Estados Unidos revela que cerca de 40% das empresas expandiram as oportunidades de trabalho remoto com o objetivo de moderar pressões salariais por parte de seus empregados.

Finalmente, a maior adoção do trabalho remoto entre os trabalhadores com maior escolaridade pode ter contribuído para a forte redução da desigualdade salarial que ocorreu durante a pandemia.

Em resumo, o aumento do trabalho remoto desde a eclosão da pandemia teve grande impacto no mercado de trabalho dos Estados Unidos. Embora a adoção do trabalho remoto no Brasil tenha sido menor que nas economias avançadas, é possível que seus efeitos ajudem a explicar o desempenho surpreendente do mercado de trabalho nos últimos anos.

Este artigo foi publicado em 27 de maio de 2024, no Blog do IBRE.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

Do mesmo autor

Autor(es)

  • Fernando Veloso

    É pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (FGV IBRE) da Fundação Getulio Vargas (FGV) do Rio de Janeiro, professor da EPGE Escola Brasileira de Economia e Finanças (FGV EPGE) e pesquisador associado do Centro de Estudos em Crescimento e Desenvolvimento Econômico da FGV. PhD em Economia pela University of Chicago. Tem graduação em Economia pela Universidade de Brasília e mestrado na mesma área pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). É coordenador (com Silvia Matos) do Observatório da Produtividade Regis Bonelli.

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