O que está por trás da queda do valor de mercado do Facebook?

A perda de confiança de usuários pode ser uma das razões para o declínio da companhia no último ano.

Administração
22/02/2022
Luca Belli

Na quinta-feira, 03 de fevereiro, as ações da Meta Platforms – controladora das plataformas digitais Facebook, WhatsApp e Instagram – sofreram a maior perda de valor de mercado da história dos mercados, despencando 26% em um único dia, o que significou uma desvalorização de cerca de 250 milhões de dólares da companhia. A imagem da companhia já foi bastante prejudicada por diversos escândalos nos últimos anos, que deram ensejo a pedidos de desculpas de seu representante, Mark Zuckerberg, inúmeras vezes.

No último ano, o mundo acompanhou a divulgação dos "Facebook Papers" e o depoimento da whistleblower Frances Haugen no Congresso estadunidense, contendo evidências das diversas práticas controversas que serviram de fundamento para o modelo de negócios das plataformas da companhia – como a recomendação automatizada de conteúdos que potencialmente causariam dependência e danos psicológicos a usuários vulneráveis, ou o perfilhamento e microdirecionamento de conteúdos ultrajantes para produzir maior engajamento polarizado na plataforma.

A perda de confiança de usuários pode ser uma das razões para o declínio da companhia no último ano, mas há também diversos fatores que podem explicar tal resultado:

Competição com o TikTok

A migração de usuários para o Tiktok – principalmente do público mais jovem, que pode considerar o Facebook como uma plataforma “antiquada”– é uma das causas para a perda de 1 milhão de usuários diários no final de 2021. Em 2020, o TikTok finalmente firmou posição de principal competidor das plataformas do Meta ao ultrapassar seus números de downloads em dispositivos no mundo, mas antes disso já era motivo de preocupação do Facebook/Meta Platforms.

Tentativas de disputar o público mais jovem, e o engajamento perdido para o competidor, vieram a partir do lançamento do recurso "reels" no Instagram, em 2019. Mais investimentos em recursos de vídeos também foram anunciados por Adam Mosseri em 2021, que afirmou a intenção de fazer com que o Instagram pudesse de fato competir com o TikTok e com o YouTube.

Como estratégia para deter a competição com outras plataformas, historicamente a Meta procurou comprar outras companhias – como o Instagram, adquirido em 2012 por mais de 1 bilhão de dólares, e o WhatsApp em 2014 por cerca de 19 bilhões de dólares.

A investida do Facebook/Meta Platforms em relação a potenciais competidores chegou à China em 2016, quando Mark Zuckerberg procurou comprar o Musical.ly – aplicativo de dublagem de músicas que posteriormente foi comprado pela ByteDance por cerca de U$S 800 milhões. O aplicativo foi posteriormente fundido com o TikTok, sendo a dublagem um dos principais assets desta plataforma.

Depois da aquisição  do Musical.ly pelo TikTok, Zuckerberg pessoalmente proferiu discursos criticando a as políticas de privacidade e também problemas de cibersegurança na plataforma chinesa. Apesar disso, o TikTok continua crescendo e se destacando das plataformas do Meta em número de downloads.     

Investidas da autoridade concorrencial estadunidense

As aquisições realizadas pelo Meta Platforms passaram a ganhar a atenção da autoridade antitruste estadunidense, a Federal Trade Commission (FTC), em 2020 – o que também levou a uma breve queda das ações da companhia naquele momento. A decisão do juiz federal James Boasberg de julgar a queixa como improcedente por falta de materialidade legal em junho de 2021 fez com que as ações rapidamente se recuperassem.   

Sob a nova administração de Lina Khan, em 19 de agosto de 2021, a FTC votou por 3 a 2 o registro da nova queixa contra a companhia por práticas anti-competitivas, com o objetivo de forçá-la a vender o WhatsApp e o Instagram. Os membros da FTC pontuaram que o Facebook/Meta Platforms atuou de forma anticompetitiva ao adquirir ilegalmente concorrentes inovadores e/ou atrair desenvolvedores destas outras companhias para depois encerrar seus contratos após estes compartilharem o seu know-how com o Meta.

Crescimento de medidas pró-privacidade de usuários e o modelo de negócios baseado em anúncios

Outra perda simbólica da plataforma foi devido às mudanças introduzidas pela Apple, em 2021, em relação aos parâmetros de privacidade no sistema operacional iOS. Ainda que diversas regulações sobre proteção de dados já tenham versado sobre o tema, foi a atualização do software dos aparelhos da Apple que produziu a perda mais significativa da companhia: cerca de US$ 10 bilhões em receita desde então.

Em resumo, a mudança fortaleceu os parâmetros de privacidade do iOS, tornando essencial o consentimento do usuário para ser rastreado por aplicativos até quando os aplicativos não estão sendo utilizados, prejudicando o modelo de negócios da Meta, que é baseado em coleta de dados para publicidade direcionada.

Ainda não é o fim do Meta

Os escândalos de privacidade e demais eventos contribuíram substancialmente para o descontentamento dos usuários com as plataformas do Meta e para o encerramento de diversas contas. Entretanto, em países em que internautas não possuem pacotes de dados acessíveis para baixar e utilizar outros aplicativos, aqueles que são "patrocinados" por políticas de zero-rating saem substancialmente à frente na disputa por usuários.

Este é o caso do WhatsApp, Facebook e Instagram no Brasil e em diversos outros países que contam com ofertas de companhias telefônicas para a utilização ilimitada (sem consumo do pacote de dados) de tais mídias sociais que, portanto, acabam sendo “subsidiadas”.

É por esta razão que há um ano, quando o WhatsApp anunciou a atualização na política de privacidade, despertando a preocupação de diversos especialistas, a maioria dos usuários não deixou de utilizar o aplicativo apesar de contestar tal atualização. Há uma falsa percepção de livre-escolha e de possibilidade de migrar para outros serviços análogos, quando somente alguns apps são subsidiados e, para usar os competidores – como Signal ou Telegram –, é necessário gastar sua franquia de dados.

A estratégia do Meta Platforms/Facebook de fazer parceria com operadoras para ter suas mídias sociais patrocinadas foi, em termos mercadológicos, bastante eficaz, mas sua compatibilidade com a regulação em matéria de neutralidade da rede no Brasil é questionada há vários anos. Assim, parece inexplicável que somente alguns aplicativos sejam patrocinados quando o artigo 9˚ do Marco Civil da Internet (Lei 12.965/2014) obriga o tratamento isonômico de pacotes de dados "sem distinção por conteúdo, origem e destino, serviço, terminal ou aplicação".

E o Metaverso?

O 'rebranding' do Facebook para 'Meta Platforms' simboliza a aposta massiva da companhia neste novo campo não regulado – o metaverso – e uma potencial ofensiva de monopolização em curso. A aposta em marketing é uma tentativa de convencer mercados de que o metaverso irá se expandir e que a realidade virtual será a sucessora da internet móvel e movimentará o comércio digital.

Tal tecnologia de realidade virtual, no entanto, ainda está em desenvolvimento, é muito longe de uma adoção de massa, e tem despertado a inquietude de especialistas sobre a implementação das políticas de comunidade na plataforma, com casos severos de abusos e de desinformação ocorrendo rotineiramente.

Mais importante, segundo dados mais recentes da Statista, o metaverso conta com apenas 50.000 usuários em todo o seu “universo” (i.e., não apenas na plataforma do Meta). Há, portanto, um longo caminho a ser percorrido a fim de que tal tecnologia seja, de fato, acessível e adotada em larga escala.

Por exemplo, o acessório principal para a "entrada" no metaverso custa cerca de 300 dólares. No Brasil, devido ao imposto de importação, ICMS, e outros fatores, o aparelho custa mais de 2 salários mínimos e, para ser utilizado, precisa de uma conexão de alta qualidade, ou seja conexão fixa por fibra ou móvel por 5G – que as operadoras brasileiras começaram a implementar somente em julho e a expectativa é que demore cerca de três a cinco anos antes de ser acessível além das áreas de mais alta renda do País.

É, portanto, impensável para grande parte da população brasileira e grande parte da população global que não possui recursos para adquirir produtos não-essenciais de custo tão elevado. Ainda, a expansão da rede 5G móvel está longe de ser uma realidade na maioria dos países do mundo, fora da China, tornando inviável a implementação da tecnologia em ambientes públicos.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

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