Relação entre a atividade econômica dos estados brasileiros no trimestre mais impactado pela crise atual e dados da Covid

Este artigo mostrou como se comportou a atividade econômica de 13 estados brasileiros no segundo trimestre de 2020, o trimestre mais impactado pela crise do coronavírus.

Economia
11/09/2020
Marcel Balassiano

O segundo trimestre de 2020, em termos de perda de atividade econômica, foi o pior trimestre da história do Brasil e da maior parte dos países do mundo,[1] em função da crise do coronavírus; das medidas (corretas) implementadas, como o distanciamento social; e o medo das pessoas em relação ao vírus.

O Gráfico 1 mostra as taxas reais de crescimento da atividade econômica para 13 estados brasileiros no segundo trimestre deste ano, em comparação com os três primeiros meses do ano, segundo dados do Banco Central.[2] O Amazonas foi o estado com o pior desempenho econômico no 2T20, e Goiás, com a menor perda. Para o Brasil, o IBC-Br indicou uma queda de 10,9%. Já a queda do PIB, de acordo com as Contas Nacionais Trimestrais do IBGE, foi de 9,7%.

Por questões de subnotificação dos casos, um problema que ocorre no Brasil e na maioria dos países do mundo, a taxa de mortalidade pode ser um indicador mais preciso do que a taxa de incidência. Também podem ocorrer subnotificações de mortes, pelo menos na causa do óbito, porém numa magnitude menor do que da incidência dos casos, já que a maioria das pessoas não é testada. No Gráfico 2,[3] de dispersão, há a relação entre a taxa de mortalidade por 100 mil habitantes[4] e as taxas reais de crescimento da atividade econômica dos 13 estados no 2T20 (em comparação com o 1T20). Pelo gráfico, percebe-se que, de maneira geral, estados com a maior taxa de mortalidade também apresentaram as maiores quedas da atividade econômica. Ceará, Rio de Janeiro e Amazonas são exemplos desse tipo, com as três maiores taxas de mortalidade dessa amostra e fortes quedas de atividade econômica (AM, o maior recuo do indicador do BC; CE, o terceiro; e o RJ, o quarto). Por outro lado, estados com menores taxas de mortalidade, também apresentaram as menores perdas econômicas, como Minas Gerais e Rio Grande do Sul. MG foi o estado com a menor taxa de mortalidade, e o RS, o antepenúltimo, dentre os 13 estados analisados.

Um ponto importante a ser destacado é a heterogeneidade econômica das regiões, pois a composição setorial dos estados interfere bastante em como a economia de um determinado estado foi afetado pela crise. Estados em que o setor de serviços, o mais afetado na crise atual, tem um peso maior, podem ter apresentado perdas maiores. Por outro lado, estados em que a agropecuária é mais forte, o impacto pode ter sido menor. É bom lembrar que, enquanto indústria e serviços devem apresentar fortes queda neste ano, a agropecuária deve ter um crescimento positivo, segundo as expectativas de mercado. A indústria também foi bastante afetada, mas menos do que o setor de serviços, pois alguns segmentos industriais não pararam totalmente como diversos segmentos de serviços (lojas, restaurantes, bares, por exemplo, somente no comércio eletrônico e de entrega, por alguns meses, com os estabelecimentos físicos fechados).

O Pará é um bom exemplo para ilustrar a situação. Apesar de ter tido uma alta taxa de mortalidade (72,2 / 100 mil habitantes), sendo a sexta maior taxa desta amostra, apresentou uma perda econômica relativamente baixa (-4,2%, sendo a quarta menor queda do indicador do BCB). Na composição setorial, a agropecuária tem um peso de 11,8% no valor adicionado da economia; indústria, 30,9%; e o setor de serviços, 57,3%. Só para efeitos de comparação, no Brasil, o peso dos setores na economia é: agropecuária, 5,3%; indústria, 21,1%; e 73,5%, serviços.[5]

Outro exemplo é Goiás, com a menor perda econômica dos 13 estados analisados, e uma “classificação” intermediária na taxa de mortalidade (47,7 / 100 mil habitantes, oitavo pior estado, dentre os 13). Além de ter um peso relevante na agropecuária (11,3%), foi o único estado desta amostra com um crescimento positivo da indústria no 2T20, conforme mostra o Gráfico 3. O peso da indústria na economia de Goiás é de 21,6%, e o setor de serviços, 67,0%.

É importante ressaltar que estas relações são para um determinado momento, e que com mudanças, principalmente na crise de saúde, as relações também podem se modificar. Como são estágios diferentes da pandemia nos estados, assim como ocorreu em períodos diferentes nos países (de maneira geral, começou na China, depois foi para a Europa, até chegar nos EUA e na América Latina), o panorama pode mudar.

O Gráfico 3 mostra as taxas reais de crescimento da indústria, serviços e comércio no 2T20, em comparação com o 1T20. A indústria brasileira recuou 17,5%, sendo o Amazonas o estado com o pior desempenho (-35,1%), e Goiás, o único estado com crescimento positivo (+2,5%). Serviços, o principal setor da economia brasileira, recuou 15,4%. Todos os estados apresentaram recuos deste indicador. Pernambuco foi o estado com o pior desempenho (-25,0%), e o Espírito Santo, com a menor perda (-7,0%). O comércio brasileiro apresentou uma queda de 12,5%,[6] com o Ceará apresentando o maior recuo (-17,7%), e Santa Catarina foi o único estado com desempenho positivo (7,6%). 

Este artigo mostrou como se comportou a atividade econômica de 13 estados brasileiros no segundo trimestre de 2020, o trimestre mais impactado pela crise do coronavírus. Além disso, também relacionou as perdas de atividade econômica desses estados com a taxa de mortalidade por 100 mil habitantes, divulgado pelo Ministério da Saúde, mostrando que, de maneira geral, estados com o pior desempenho na crise de saúde também tiveram as maiores perdas econômicas.

ANEXO  

Na Tabela A.1 há os dados contidos nos Gráficos 1, 2 3, com as taxas reais de crescimento da atividade econômica, indústria, serviços e comércio e as taxas de mortalidade por 100 mil habitantes para o Brasil e os 13 estados.

 


[1] Para os EUA, ver “PIB dos EUA no segundo trimestre de 2020”, publicado no Blog do IBRE, em 10/08/20.

[2] O Banco Central divulga mensalmente o Indicador de Atividade Econômica Regional (IBCR) para 13 estados brasileiros, os mesmos estados (com exceção do Mato Grosso) com dados da Produção Industrial divulgados pelo IBGE.

[3] Os dados do Gráfico 2 estão na Tabela A.1, no anexo, com uma tabela resumo indicando os dados de todos os gráficos deste artigo.

[4] Os dados do Ministério da Saúde são acumulados desde o início da crise até 03/09/20.

[5] Os dados são de 2017, último dado disponível das Contas Regionais do IBGE. Para o Brasil, comparou-se também com os dados de 2017 das Contas Regionais. De acordo com os dados de 2019 para o Brasil, das Contas Nacionais Trimestrais do IBGE, os resultados são bastante próximos: 5,2%, agropecuária; 20,9%, indústria; 73,9%, serviços.

[6] Dados do Comércio varejista ampliado. A queda do comércio varejista, no conceito restrito, foi de -8,2%.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

Autor(es)

  • Marcel Balassiano

    Economista da área de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia (FGV IBRE). Mestre em Economia Empresarial e Finanças pela EPGE Escola Brasileira de Economia e Finanças (FGV EPGE), mestre em Administração pela Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (FGV EBAPE) e bacharel em Economia pela FGV EPGE.

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