Sarampo no Brasil no século XXI

O Brasil, que já tinha sido considerado, pela Organização Panamericana da Saúde (OPS), país livre do sarampo em 2016, perdeu esta classificação. Para quem lê ou assiste ao noticiário, é claro que vivemos uma nova epidemia

Institucional
03/09/2019
Ana Maria Malik

O conhecimento atualizado e o de moda na área de gestão em saúde no século XXI implica falar nas doenças crônico-degenerativas, aquelas que têm a ver com os males do consumo e com o ganho em anos de vida obtidos pelo progresso. Estamos falando daquilo que Michael Porter, quando tenta introduzir o conceito de valor em saúde, chama de condições. Ou seja, ele considera que a organização do serviço deve ir além do diagnóstico específico, tomando em conta todas as questões que se associam a este. Assim, o diabetes deve ser entendido como um todo, considerando os problemas oftalmológicos, renais, vasculares, endócrinos, entre outros, de maneira a tentar desfragmentar o sistema. Além disso, é inegável a influência do meio ambiente, do estilo de vida e de aspectos culturais, sempre em transformação.

No entanto, como o movimento pendular ocorre com muita frequência na forma de raciocinar das pessoas, quando se pensa nas condições crônicas é como se não fosse mais necessário preocupar-se com o outro extremo do continuum, o das doenças infectocontagiosas, relegadas ao repertório do século XX. Estas já teriam sido eliminadas pelo desenvolvimento de vacinas, pelo aumento do saneamento, por moradias mais adequadas.

Só que não (como dizem os jovens). O Brasil, que já tinha sido considerado, pela Organização Panamericana da Saúde (OPS), país livre do sarampo em 2016, perdeu esta classificação. Para quem lê ou assiste ao noticiário, é claro que vivemos uma nova epidemia. E esta, apesar da existência de uma vacina eficaz, se deve a questões do século XXI: liberdade individual e hesitação vacinal (induzida, entre outras coisas, pelas redes sociais, onde se divulgava a associação – espúria – entre autismo e vacinação),  migrações ou situações de vulnerabilidade social (por exemplo, refugiados venezuelanos que entraram no país sem que as autoridades brasileiras fizessem algum tipo de controle de imunizações) ou apenas turismo, em que pessoas trazem, muito rapidamente, o vírus que ataca populações brasileiras sem cobertura vacinal. De fato, uma ampla parcela dos brasileiros não apresenta proteção contra este vírus, por não ter tomado a vacina e por não ter tido outro tipo de contato anterior com o vírus.

Uma parte considerável dos cidadãos não identifica as doenças infectocontagiosas como potencialmente graves, por não terem convivido com a realidade de ter pessoas próximas vitimadas pela mesma e pela crença de que sejam doenças do passado. Estes consideram ainda que os recursos tecnológicos atuais da medicina permitem que a resolução de problemas ligados à doença sejam um problema de resolução trivial. No entanto, sarampo mata e não mata apenas crianças em estado de desnutrição. Mesmo que seja considerado por muitos uma doença simples, temos visto suas consequências.

Vacinar-se é preciso, cuidar da saúde também.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

Autor(es)

  • Ana Maria Malik

    Graduada em Medicina pela USP, mestre em Administração de Empresas pela Fundação Getulio Vargas e doutora em Medicina (Medicina Preventiva) pela USP. Professora Titular da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (FGV EAESP), acadêmica eleita para a Academia Brasileira da Qualidade. Atualmente é parecerista ad hoc de diversas revistas de gestão e de saúde, membro de conselho editorial da Revista Einstein, professora convidada da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, membro do conselho da Alass (Associação Latina para Análise dos Sistemas de Saúde), e da Fundação para Segurança do Paciente. É Coordenadora do FGVsaúde da FGV EAESP, diretora adjunta do PROAHSA da FGV e coordenadora da linha de saúde do Mestrado Profissional em Gestão para a Competitividade (MPGC) da FGV EAESP.

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