Bioenergia evita despejo de 13,3 milhões de toneladas de CO2 no segundo trimestre, revela estudo

O objetivo é acompanhar, trimestralmente, a dinâmica de consumo de combustíveis no Brasil, com atenção especial à análise e compreensão dos efeitos da bioenergia na redução das emissões de gases causadores do efeito estufa (GEE).  
Energia
11 Dezembro 2023
Bioenergia evita despejo de 13,3 milhões de toneladas de CO2 no segundo trimestre, revela estudo

O Observatório de Conhecimento e Inovação em Bioeconomia da Fundação Getulio Vargas (FGV) acaba de lançar mais uma edição do dashboard de descarbonização na matriz de combustíveis leves. O objetivo é acompanhar, trimestralmente, a dinâmica de consumo de combustíveis no Brasil, com atenção especial à análise e compreensão dos efeitos da bioenergia na redução das emissões de gases causadores do efeito estufa (GEE).  

Entre os resultados para o segundo trimestre de 2023, se destacam: 

  • No segundo trimestre de 2023, o consumo energético de combustíveis leves cresceu 11,5% e o consumo do ciclo diesel avançou 3,3% na comparação com igual período do último ano. 

  • Apesar do ganho de eficiência energético-ambiental de 2,0% na produção de etanol, a queda na participação do biocombustível no consumo total promoveu piora de 3,4% na intensidade de carbono da matriz de combustíveis leves, que atingiu 66,4 gCO2eq/MJ. 

  • O ganho de eficiência energético-ambiental de 3,5% e o aumento na mistura de biodiesel promovem melhoria de 2,1% na intensidade de carbono da matriz de ciclo diesel, que alcançou 76,7 gCO2eq/MJ. 

  • As emissões totais de GEE alcançaram 28,0 milhões de toneladas de CO2eq. na matriz de ciclo Otto (+ 15,2%) e 44,4 milhões de toneladas nos combustíveis do ciclo diesel (+ 1,5%). 

  • As emissões evitadas pela presença da bioenergia atingiram 13,3 milhões de toneladas de CO2eq. na frota leve e pesada (+ 8,0%) apenas no segundo trimestre de 2023, o que equivale ao plantio de 32,3 mil hectares de árvores nativas. 

“A partir desse trimestre, também passamos a acompanhar a situação das emissões no setor de combustível do ciclo diesel. Os resultados obtidos nessa versão ampliada do relatório evidenciam como políticas públicas, alterações no arcabouço regulatório e as condições de mercado afetam a dinâmica de emissões no setor de transporte no Brasil”, destaca Luciano Rodrigues, pesquisador do Observatório e coordenador do estudo. 

“A partir desse trimestre, também passamos a acompanhar a situação das emissões no setor de combustível do ciclo diesel. Os resultados obtidos nessa versão ampliada do relatório evidenciam como políticas públicas, alterações no arcabouço regulatório e as condições de mercado afetam a dinâmica de emissões no setor de transporte no Brasil”, destaca Luciano Rodrigues, pesquisador do Observatório e coordenador do estudo. 

  1. Matriz de Combustíveis leves (Ciclo Otto) 

  1. Consumo e intensidade de carbono  

Seguindo tendência observada no 1º trimestre deste ano, a participação do etanol no consumo energético de combustíveis leves apresentou retração no 2º trimestre de 2023.  

O etanol hidratado, vendido diretamente nos postos de combustíveis, foi responsável por apenas 17,9% da energia demanda pelos veículos leves no 2º trimestre deste ano, com redução significativa em relação a proporção de 22,9% registrada no mesmo trimestre de 2022. Com isso, a participação total do etanol alcançou 34,7% da energia consumida no setor de combustíveis leves, ante proporção de 38,6% observada em igual período do último ano (Figura 1). 

A menor participação do biocombustível decorre especialmente da perda de competitividade e do menor consumo de etanol hidratado nos seis primeiros meses deste ano. Nesse período, a edição da Medida Provisória nº 11.157, de 1 de janeiro de 2023, promoveu o adiamento do retorno dos tributos federais sobre os combustíveis leves, prejudicando a competitividade do hidratado. A Medida Provisória nº 11.163/2023, por sua vez, foi editada no final de fevereiro, prevendo o restabelecimento apenas parcial desses tributos até o final de junho. Com isso, o retorno dos impostos previsto para o início de janeiro aconteceu de maneira integral apenas a partir de 1º de julho. 

Essa condição foi associada ao anúncio na mudança da precificação da gasolina no mercado interno e às constantes alterações relacionadas à monofasia no recolhimento dos tributos sobre o derivado ao longo dos primeiros seis meses de 2023. Como resultado, o consumo de etanol ficou aquém daquele registrado em 2022, comprometendo a intensidade de carbono da matriz de combustíveis leves no País. 

Figura 1. Participação energética dos combustíveis na matriz do ciclo Otto 

Nesse contexto, a intensidade média da matriz de combustíveis leves alcançou 66,4 gCO2eq/MJ no 2° trimestre de 2023, registrando piora de 3,4% na comparação com o índice registrado em igual trimestre do ano anterior (64,2 gCO2eq/MJ). Esse indicador avalia as emissões de gases de efeito estufa (GEE) originadas da queima de uma unidade de energia (megajoule) pelos veículos leves no País.  

A pioria no índice de carbono da matriz de combustíveis leves só não foi mais intensa em função do ganho de eficiência energético-ambiental do etanol comercializado no período. Com efeito, a intensidade média de carbono (IC) do etanol hidratado apresentou melhora de 2,2%  no 2º trimestre de 2023, saindo de 28,1 gCO2eq/MJ em 2022 para 27,5 gCO2eq/MJ neste ano. O mesmo movimento foi observado no caso do etanol anidro comercializado, cuja IC atingiu 26,1 gCO2eq/MJ no 2º trimestre de 2023, ante 26,3 gCO2eq/MJ no mesmo período do último ano.    

1.2 Número de plantas certificadas 

Até o final de junho deste ano, a produção de etanol hidratado contava com 275 plantas industriais com certificação válida na Política Nacional de Biocombustível. No caso do etanol anidro, o número de plantas certificadas no final do segundo trimestre de 2023 totalizava 183 empresas. 

1.3 Emissões de GEE  

As emissões de GEE na matriz de combustíveis leves totalizaram 28,1 milhões de toneladas de CO2eq no 2° trimestre de 2023, atingindo crescimento de 15,2% na comparação com a quantidade emitida em igual período de 2022 (24,3 milhões de toneladas de carbono equivalente). Essa maior emissão de GEE é explicada pela já mencionada piora na intensidade de carbono da matriz de combustíveis leves e pelo aumento de 11,5% do consumo de combustíveis leves no País.  

Em síntese, apesar do ganho de eficiência energético-ambiental na produção de etanol, o aumento do consumo e a redução na participação dos biocombustíveis na matriz brasileira promoveram maior emissões de GEE no 2° trimestre de 2023. 

A Figura 2 apresenta a evolução das emissões de GEE e as emissões de GEE evitadas pela bioenergia, considerando dados trimestrais registrados até o segundo trimestre de 2022. 

Figura 2. Evolução das emissões totais de GEE na matriz de combustíveis leves e das emissões evitadas pela bioenergia 

1.4 Emissões de GEE evitadas pela bioenergia 

Embora observada retração na participação relativa dos biocombustíveis na matriz, as emissões evitadas pela presença da bioenergia na matriz de combustíveis leves totalizaram 8,9 milhões de toneladas de CO2eq. no 2º trimestre de 2023 (Figura 2). Para se ter o mesmo resultado, seria necessário o plantio de 21,6 mil hectares de floresta tropical. 

2. Matriz do Ciclo Diesel 

2.1 Consumo e intensidade de carbono  

O consumo de diesel B (mistura de diesel puro com biodiesel) atingiu 16,0 bilhões de litros no 2º trimestre de 2023, com aumento de 3,4% na comparação com o volume comercializado em igual período do ano anterior (15,5 bilhões de litros).  

A intensidade média de carbono da matriz do ciclo diesel alcançou 76,7 gCO2eq/MJ no 2º trimestre de 2023, registrando melhoria de 2,1% na comparação com o IC verificado no 2º trimestre de 2022 (78,4 gCO2eq/MJ). Esse índice decorre da ponderação da IC de 86,5  gCO2eq/MJ do diesel puro com a IC de 17,6 gCO2eq/MJ do biodiesel.  

O biodiesel comercializado no 2º trimestre deste ano também apresentou melhoria de 3,5% na intensidade de carbono, saindo de 18,2 gCO2eq/MJ no 2º trimestre de 2022 para 17,6 gCO2eq/MJ no mesmo trimestre deste ano. 

Portanto, a melhoria mencionada na IC do ciclo diesel decorre do ganho de eficiência energético-ambiental associado à produção de biodiesel e ao aumento na participação do biodiesel no consumo energético da frota pesada. A saber, a mistura volumétrica de biodiesel no diesel B foi incrementada em abril deste ano, passando de 10% para 12%. 

2.2 Número de plantas certificadas 

Até o final de junho deste ano, a produção de biodiesel contava com 37 plantas certificadas na Política Nacional de Biocombustível.  

2.3 Emissões de GEE  

As emissões de GEE na matriz de combustíveis do ciclo diesel totalizaram 44,4 milhões de toneladas de CO2eq no 2° trimestre de 2023 (Figura 3), registrando crescimento de 1,5% na comparação com a quantidade emitida em igual período de 2022 (43,7 milhões de toneladas de carbono equivalente). 

O aumento nas emissões de GEE na matriz da frota pesada remete ao crescimento no consumo de diesel B no país, que saltou de 15,5 bilhões de litros no 2º trimestre de 2022 para 16,0 bilhões no mesmo trimestre deste ano. 

Caso a melhoria na IC do biodiesel e a maior participação do biocombustível no consumo total apenas não tivessem acontecido, o crescimento das emissões de GEE na matriz de ciclo diesel teria alcançado 3,3%, ante o aumento de 1,5% registrado no período.    

Figura 3. Evolução das emissões totais de GEE na matriz de combustíveis pesados e das emissões evitadas pela bioenergia 

2.4 Emissões de GEE evitadas pela bioenergia 

As emissões de GEE evitadas pela presença da bioenergia na matriz de ciclo diesel atingiram 4,4 milhões de toneladas de CO2eq no 2º trimestre de 2023 (Figura 3). Esse índice é significativamente superior às 3,5 milhões de toneladas de  CO2eq verificadas no 2º trimestre do último ano.  

Para se ter o mesmo resultado em termos de emissões de GEE evitadas no 2º trimestre de 2023, seria necessário o plantio de 10,7 mil hectares de floresta tropical. 

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