64 países, que representam mais de 60% da economia mundial, devem apresentar o pior desempenho econômico das últimas décadas

As incertezas atualmente são muito altas ainda, e as notícias e projeções de agora não são nada boas, tanto para a economia mundial quanto para a economia brasileira nesse ano

Economia
30/04/2020
Marcel Balassiano

Essa pandemia do coronavírus, uma crise de saúde que tem impactos na economia, começou na China, e se espalhou por praticamente o mundo inteiro. Como surpresa, talvez, os três países mais impactados (em número de infectados e de mortes) são países fortes e importantes (EUA, Itália e Espanha), que representam 18,1% do PIB mundial (US$, PPP).[1]

Saber a dimensão da crise econômica ainda é muito difícil, dada as inúmeras incertezas em torno disso tudo. Porém, recentemente, foi divulgado pelo FMI, na sua reunião semestral de abril, o World Economic Outlook, com projeções para algumas variáveis macroeconômicas,[2] entre elas a taxa real de crescimento do PIB, para esse conturbado ano de 2020. Para o PIB mundial, o FMI projeta um recuo de 3,0%. Em 2009, no contexto da crise financeira internacional, a economia mundial ficou estagnada (-0,1%). A base de dados do FMI tem início em 1980.

Pois bem, ao se pegar todos os países com projeções disponíveis para 2020 (193, no total), 33% (ou 64 países) apresentarão a pior taxa real de crescimento do PIB desde o início da série histórica, em 1980. Essa crise é muito forte, e está atingindo praticamente o mundo inteiro. Porém, países mais pobres, emergentes, e até alguns desenvolvidos, já passaram por crises econômicas com quedas mais fortes do PIB, por isso essa taxa de 1/3 dos países.

Ao se dividir entre economias avançadas e emergentes, essa diferenciação fica mais clara ainda, pois 80% dos países avançados (31 em 39)[3] vão apresentar o pior crescimento econômico dos últimos 40 anos. Já entre os emergentes, o crescimento do PIB de 2020 será o pior desde 1980 para “apenas” 21% dos países (33 em 155).[4] Só que é importante ressaltar também que esses 31 países avançados representam 34% da economia mundial (em US$, PPP). Entre os emergentes, tem a China, que tem o peso de 19,2% na economia mundial, e os outros 32 países somados representam 8,1%. Ou seja, os 64 países (33% do total), que vão apresentar o pior desempenho da economia desde 1980, de acordo com as projeções do FMI, representam 61,2% da economia mundial. Ainda segundo as projeções do fundo, as economias avançadas vão recuar 6,1% esse ano. Já a queda dos países emergentes deve ser de 1,0%. Tanto para as economias avançadas quanto emergentes, a pior taxa de crescimento da série histórica. Em 2009, no contexto da crise financeira internacional, o recuo do PIB dos países avançados foi de 3,3%. Já as economias emergentes cresceram 2,8%, número inferior à média histórica até então (1980-2009), de 4,3%, e da média histórica até 2019, de 4,5%.

Nas economias avançados, um país que não está nessa lista de pior crescimento é o Japão, que, segundo o FMI, o PIB vai recuar 5,2% esse ano. Em 2009, como reflexo da crise internacional, a queda foi de 5,4%. No G7 (Alemanha, Canadá, EUA, França, Itália, Japão, e Reino Unido), o Japão é o único país que em 2020 não deve ser o ano com o menor crescimento econômico desde 1980. Dentre os 19 países da Zona do Euro, 14 vão apresentar o pior desempenho econômico desde 1980. Chipre, Estônia, Finlândia, Letônia e Lituânia são os cinco países que já apresentaram um crescimento menor do que o projetado em 2020. Porém, esses cinco países juntos representam 0,4% do PIB mundial, e 3,1% do PIB da zona do euro.

Dentre os BRICS, por exemplo, Rússia e Índia não estão nessa lista de pior crescimento. O PIB da Rússia, que tem um peso de 3,1% na economia mundial, vai cair 5,5% em 2020, segundo o FMI. Em 1994, ano da Crise do México, que afetou os emergentes, o PIB russo recuou 12,7%, máximo da série histórica. Em 1998, na crise da moratória russa, a queda da economia da Rússia foi de 5,3%. Em 2009, com a crise financeira internacional, a queda foi de 7,8%, também superior à projeção desse ano. Já a Índia, que tem um peso de 8,0% na economia mundial, vai crescer, em termos reais, 1,8%, segundo as projeções do FMI. A menor taxa de crescimento indiana foi em 1990, de 1,1%, fruto de fatores externos (colapso da União Soviética, maior parceiro comercial indiano; oscilações fortes no preço do petróleo, com guerra do Golfo, provocando uma crise no balanço de pagamentos; entre outros).

Já entre países da América Latina, há exemplos de países que em 2020 não vai ser o pior ano de crescimento do PIB. A Argentina, que segundo o FMI vai ter uma perda de 5,8% do PIB em 2020, já chegou a recuar 10,9% em 2002, durante a crise econômica de lá, em que houve quatro anos de recuo do PIB (1999-2002). Em 2009, na crise financeira internacional, o PIB argentino caiu 5,9%, número próximo da projeção de 2020. Para o Chile, o fundo projeta uma queda de 4,9% do PIB para esse ano. Em 1982, o PIB chileno caiu 13,6%, ano em que houve uma forte crise no Chile. Em 2009, o PIB caiu 1,5%. A projeção para a Colômbia é de um PIB de -2,4% em 2020. A maior queda (-4,2%) foi em 1999, fruto de efeitos locais, do efeito “desnarcotização” (com o desmantelamento dos cartéis de Cali e Medellín, uma parte do comércio da droga passou para as mãos de outras máfias, em especial a mexicana). O PIB peruano deve recuar 4,5% esse ano, segundo o FMI, sendo que a perda máxima de atividade econômica foi em 1989, com uma queda de 13,4%, época da hiperinflação no Peru, fenômeno também conhecido em outros países latino-americanos, o Brasil inclusive. A Venezuela, talvez o país latino-americano com a pior confiabilidade dos dados e eficácia das projeções, vai recuar 15,0% em 2020, após uma perda de PIB de 35,0% no ano passado; -19,6% em 2018; -15,7% em 2017; e -17,0% em 2016.

Já o México, assim como o Brasil, vai apresentar o pior desempenho econômico, em termos de crescimento do PIB. Para o FMI, o PIB do México vai recuar 6,6%. Em 1995, com a crise do México, o PIB mexicano recuou 6,3%. Para o Brasil, enquanto o FGV IBRE projeta um recuo de 3,4%, o FMI projeta uma perda de PIB de 5,3%. Caso esse cenário do FMI se confirme, será a pior taxa da história brasileira, segundo dados do Ipeadata,[5] pior do que o resultado anual de 2015 e 2016, o biênio de crescimento negativo da última recessão brasileira, fruto de erros de política econômica da chamada “Nova Matriz Econômica”. A pior queda do PIB brasileiro foi de 4,3%, mesma taxa de 1981 e 1990. Em 1981, no início da década que ficou conhecida como “década perdida”, devido ao péssimo desempenho econômico, numa época de inflação alta e até hiperinflação no final dos anos 1980 e começo de 1990. Porém, a década foi perdida em termos econômicos, mas bastante positiva, pela volta da democracia. Já em 1990, além dos problemas de inflação, foi o ano do Plano Collor, com o confisco da poupança.

Então, as incertezas atualmente são muito altas ainda, e as notícias e projeções de agora não são nada boas, tanto para a economia mundial quanto para a economia brasileira nesse ano, infelizmente. Tomara que essa crise passe logo, com o menor impacto possível, tanto em questões de saúde quanto na parte econômica, e que todos possamos voltar à “maior normalidade” possível em breve!


[1] Dados de 2019, divulgados no WEO de out/19, pois não houve atualização no WEO de abr/20. EUA = 15,0%; Itália = 1,7%; Espanha = 1,4%.

[2] Bem menos projeções (número de variáveis e anos futuros) do que geralmente divulgam, em função das incertezas dessa crise.

[3] Os 31 países avançados são: Alemanha, Austrália, Áustria, Bélgica, Canadá, Cingapura, Dinamarca, Eslovênia, Espanha, EUA, França, Grécia, Holanda, Irlanda, Islândia, Israel, Itália, Luxemburgo, Macau, Malta, Noruega, Nova Zelândia, Porto Rico, Portugal, República Eslovaca, República Tcheca, São Marinho, Suécia, Suíça, Taiwan e Reino Unido.

[4] Os 33 países emergentes são: Afeganistão, África do Sul, Aruba, Bahamas, Bahrein, Bangladesh, Barbados, Bielorrússia, Belize, Bósnia e Herzegovina, Brasil, Cabo Verde, China, Croácia, Equador, Geórgia, Granada, Jamaica, Kosovo, Lesoto, México, Montenegro, Myanmar, Namíbia, Nigéria, Paquistão, Palau, Seychelles, Somália, São Cristóvão e Nevis, Santa Lúcia, São Vicente e Granadinas e Tunísia.

[5] A base de dados do Ipedata começa em 1901. Já a base de dados do FMI tem início em 1980.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

Autor(es)

  • Marcel Balassiano

    Economista da área de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia (FGV IBRE). Mestre em Economia Empresarial e Finanças pela EPGE Escola Brasileira de Economia e Finanças (FGV EPGE), mestre em Administração pela Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (FGV EBAPE) e bacharel em Economia pela FGV EPGE.

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