Aumento das locações de veículos no Brasil

Para reforçar o bom momento das locadoras brasileiras, a Associação Brasileira das Locadoras de Automóveis (ABL) registrou 69,3 milhões de usuários, em 2022, número superior em 38,3% e 55,4%, em relação a 2021 e 2020, respectivamente.

Políticas Públicas
28/03/2023
Marcus Quintella

Apesar da pandemia da Covid-19, que perdura desde o início de 2020, e da consequente crise na indústria automobilística brasileira, o setor de locação de veículos vem registrando números promissores. Segundo o anuário da Associação Brasileira das Locadoras de Automóveis (ABLA), o faturamento bruto das locadoras atingiu R$ 36,8 bilhões, em 2022, com um forte crescimento de 56,6%, em relação a 2021, e de fantásticos 109,0% sobre 2020. Em termos de frota, as locadoras adquiriram 590.520 automóveis 0Km, em 2022, que implica num aumento de 33,6%, em relação a 2021, e de 63,8% sobre 2020. Essas compras do ano passado já superam em 9,1% o número de antes da pandemia, em 2019, quando foram adquiridos 541.346 carros 0Km.

Para reforçar o bom momento das locadoras brasileiras, a ABLA registrou 69,3 milhões de usuários, em 2022, número superior em 38,3% e 55,4%, em relação a 2021 e 2020, respectivamente. Em 2020, havia 11.053 locadoras no país e, hoje, são computadas 22.941, aumento de 107,6%.

Certamente, esses números superaram as expectativas do setor, visto que, juntamente à pandemia, a guerra na Ucrânia ajudou na desaceleração da economia mundial. No Brasil, as consequências desses dois adventos diminuíram a produção de veículos, provocaram aumentos dos preços da gasolina e do diesel, afetaram os serviços de transporte e causaram prejuízos no turismo receptivo internacional, dentre outros efeitos econômicos negativos. Cabe lembrar que o tráfego aéreo global foi reduzido drasticamente por causa da pandemia, com a consequente diminuição da procura por carros de aluguel nos aeroportos. Então, qual seriam as justificativas e motivações para esses expressivos números do setor de locações de veículos?

Algumas explicações podem ser plausíveis para o crescimento das locações de veículos, tais como:

  • A mudança de hábitos das pessoas, com a intuitiva autoproteção para evitar contágio em ambientes públicos;
  • Os altos preços de aquisição dos carros 0Km;
  • A percepção das vantagens da terceirização das frotas corporativas;
  • A retomada dos turismos doméstico e internacional receptivo.

A pandemia modificou o comportamento das pessoas, que, na medida do possível, passaram a evitar o transporte público, visto que a distância segura entre as pessoas fica difícil nos interiores dos veículos e nas estações e plataformas de embarque e desembarque. Dessa forma, aqueles que possuíam carros próprios começaram a retirar seus veículos das garagens para se “blindarem” da Covid-19. Os cidadãos sem carros próprios, mas com boa condição financeira, passaram a utilizar táxis, carros de aplicativos ou aluguel de veículos. Ademais, a escassez e má qualidade do transporte público das cidades brasileiras também vem desviando muitos usuários para o transporte individual, que inclui o carro próprio, táxis, aplicativos e locações.

Quanto aos altos preços de compras de carros 0Km, a locação passou a ser uma opção economicamente viável, tanto para pessoas físicas, como para as pessoas jurídicas. Mesmo com as tarifas de locação de veículos mais caras, a necessidade de mobilidade individual tem ajudado o setor, especialmente no modelo de assinatura, que está bem impulsionado. A assinatura dá a sensação de propriedade temporária do veículo, sem a preocupação com manutenção, seguro, IPVA e renovação. No caso das empresas, a terceirização de frotas também está crescendo, pois as planilhas de custos e análises financeiras mostram maior vantagem sobre a aquisição de frota própria.

No caso da retomada dos turismos doméstico e internacional receptivo, a desvalorização do real em relação ao dólar americano e ao euro afasta o brasileiro das viagens para o exterior e torna o turismo interno mais atraente financeiramente. Isso significa maior demanda por locação de carros nos aeroportos brasileiros.

O turismo é muito importante para o setor de locação de veículos. De acordo com a ABLA, o turismo de lazer, somado ao turismo de negócios, respondeu pela demanda de 48% do setor de locação de carros, no final de 2022.

O Portal Brasileiro do Turismo noticiou que os turistas estrangeiros gastaram US$ 4,95 bilhões no Brasil, em 2022, segundo as estatísticas do setor externo, divulgadas pelo Banco Central do Brasil. Esse montante representa um crescimento de 68% em relação a 2021, e de 173,8% sobre 2020, ano do início da pandemia. Em complemento, segundo o Ministério do Turismo, mais de 3,63 milhões de turistas internacionais visitaram o Brasil em 2022, número quase cinco vezes em relação a 2021, mas 43% menor que o registrado no período pré-pandêmico.

Esses resultados permitem projeções bem otimistas para 2023, colocando a locação de veículos como uma forte tendência nos próximos 10 anos no mercado brasileiro, de acordo com o Relatório Temático - Locação, do BGT Pactual, lançado em novembro de 2022. O relatório diz que a assinatura de aluguel de carros está se tornando preferência do público jovem e, até 2032, há a expectativa de quadruplicação da frota de veículos disponíveis para locação no Brasil.

Em última análise, o crescimento do setor de locação de veículos, assim como de qualquer outro setor, é muito saudável, pois contribui para a retomada do desenvolvimento econômico do país, por meio da geração de empregos, produtividade da indústria automotiva, arrecadação de tributos, entre outros benefícios. Por outro lado, vale ressaltar que o aumento de locações também provocará o incremento de veículos circulando nas cidades e rodovias, causando malefícios socioeconômicos e ambientais, como congestionamentos, emissões de poluentes na atmosfera, ruídos, perdas de tempo, ineficiência energética, entre outros. Contudo, isso seria um bom tema para outro artigo.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

Autor(es)

  • Marcus Quintella

    Doutor em engenharia de produção pela Coppe/UFRJ, mestre em transportes pelo IME, pós-graduado em administração financeira pela FGV e engenheiro civil pela Universidade Veiga de Almeida. Atualmente, é diretor da FGV Transportes, editor-chefe da Revista Brasileira de Transportes - RBT e coordenador acadêmico dos cursos de MBA da FGV.

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