Levantamento aponta que maioria dos crimes no Rio ocorre em corredores de apenas 12 km
Políticas Públicas
18 Janeiro 2018

Levantamento aponta que maioria dos crimes no Rio ocorre em corredores de apenas 12 km

As informações sobre as distâncias percorridas entre a moradia do preso e o local de ocorrência do crime podem ser potentes instrumentos de interpretação de motivações e dinâmicas criminais.

Levantamento inédito da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (FGV DAPP) a partir de dados da Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (SEAP) mostra que, na cidade do Rio de Janeiro, criminosos fazem, na maior parte das vezes, um percurso curto para a realização de crimes. Segundo a pesquisa, as distâncias percorridas por infratores condenados por prática de roubo, furto, extorsão ou tráfico de drogas, considerando o universo de presos no primeiro semestre de 2015 — dado mais recente disponível —, localizaram-se, principalmente, num corredor de deslocamento de até 12 quilômetros, menos do que a extensão da Ponte Rio-Niterói. Juntos, estes tipos de crime representam 72% dos delitos que levaram a condenações no estado.

A Zona Norte da capital aparece, neste contexto, como a região que mais concentrou trajetórias de curto alcance (0km a 12km) entre o local de moradia do preso e o de registro de ocorrência, em comparação com deslocamentos médios (12km a 24km) ou longos (24km a acima de 40km).  A relação indica que o custo do crime — gasto para locomoção e o risco no momento de fuga — pode ser levado em consideração. Além disso, uma outra questão relacionada à proximidade entre a residência autodeclarada do autor e a região de ocorrência do delito pode estar associada à suposta garantia de proteção da organização criminosa a que pertencem ou que dominam a região. 

“A análise desses deslocamentos pode ajudar a entender as dinâmicas criminais na cidade e oferecer insumos para policiamento preventivo e investigações. As informações, aliadas a outras bases de dados sobre segurança pública no Rio, podem ser, dessa forma, instrumentos no caminho de implementar políticas públicas orientadas pelo uso de dados e análises”, aponta a pesquisadora Ana Luisa Azevedo.

No caso de crimes contra o patrimônio (roubo, furto, extorsão etc.), destacam-se duas áreas: Centro e Grajaú e adjacências. No primeiro, observam-se raios curtos na própria região e na Maré. Já na área de abrangência da delegacia do Grajaú, vê-se um predomínio das curtas distâncias, mas também uma afluência de condenados de bairros limítrofes do município do Rio, tanto na Zona Norte quanto na Zona Oeste mais distante. No caso de tráfico de drogas, mantém-se a preponderância das distâncias curtas, mas já aparecem outros agrupamentos em bairros da Zona Oeste, assim como uma teia que passa a cobrir mais os espaços da Zona Oeste litorânea e da Zona Sul.

As áreas que mais acumularam registros de condenação por crimes de tráfico de drogas estavam nos bairros de Bangu e da Taquara e suas adjacências, ambos na Zona Oeste. A trajetória mais distante, por sua vez, vem da Zona Sul e da área da Ilha do Governador, além de alguns bairros da Zona Norte mais próximos do Centro. Já a trajetória intermediária provém de bairros limítrofes da cidade com a região da Baixada Fluminense, além de bairros mais distantes da própria Zona Oeste.  No caso da área da Taquara, destaca-se também o peso das trajetórias de curta distância, sobretudo as que seguem o caminho em direção à área da Barra da Tijuca, passando pela Cidade de Deus. As trajetórias médias e longas, por sua vez, além de serem poucas, não apresentam padrão claramente definido.

As informações sobre as distâncias percorridas entre a moradia do preso e o local de ocorrência do crime podem ser potentes instrumentos de interpretação de motivações e dinâmicas criminais. É importante compreender que o lugar de onde saem os indivíduos que cometem crimes e as trajetórias e fluxos que constroem na cidade podem ser importantes elementos para a elaboração de políticas de prevenção. Além disso, podem auxiliar no processo de investigação das polícias, buscando identificar padrões e a articulação entre diferentes eventos. Estas informações podem ser usadas de forma complementar às demais fontes de dados de segurança pública, indo ao encontro de uma perspectiva de ações policiais orientadas pela inteligência com o uso de diversas fontes de informação para tomada de decisão.

O estudo foi feito a partir de dados da SEAP de 2015, quando houve a última atualização, e engloba 1.644 detentos maiores de idade que foram condenados no ano de 2015. O estudo completo está disponível no site.

Quer saber mais sobre o assunto? Hoje (18/01), a partir das 15h30, a pesquisadora Ana Luisa Azevedo participa ao vivo do Bate-Papo FGV. Acompanhe e participe em nossa página do Facebook!